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Gregorio-de-Matos
Gregorio-de-Matos

Título: Poemas Escolhidos de Gregório de Matos

Sinopse: Esta coletânea apresenta ao leitor uma seleção poemas de Gregório de Matos nas diversas modalidades que cultivou – a satírica, a encomiástica, a lírica amorosa e a religiosa -, de par com notas de esclarecimento do texto, um perfil biográfico do poeta e uma análise crítica de sua obra.

I  

Para cantar de amor tenros cuidados,  

Tomo entre vós, ó montes, o instrumento;  

Ouvi pois o meu fúnebre lamento;  

Se é, que de compaixão sois animados:  

Já vós vistes, que aos ecos magoados  

Do trácio Orfeu parava o mesmo vento;  

Da lira de Anfião ao doce acento  

Se viram os rochedos abalados.  

Bem sei, que de outros gênios o Destino,  

Para cingir de Apolo a verde rama,  

Lhes influiu na lira estro divino:  

O canto, pois, que a minha voz derrama,  

Porque ao menos o entoa um peregrino,  

Se faz digno entre vós também de fama.  

II  

Leia a posteridade, ó pátrio Rio,  

Em meus versos teu nome celebrado;  

Por que vejas uma hora despertado  

O sono vil do esquecimento frio:  

Não vês nas tuas margens o sombrio,  

Fresco assento de um álamo copado;  

Não vês ninfa cantar, pastar o gado  

Na tarde clara do calmoso estio.  

Turvo banhando as pálidas areias  

Nas porções do riquíssimo tesouro  

O vasto campo da ambição recreias. 

Que de seus raios o planeta louro  

Enriquecendo o influxo em tuas veias,  

Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.  

III  

Pastores, que levais ao monte o gado,  

Vede lá como andais por essa serra;  

Que para dar contágio a toda a terra,  

Basta ver-se o meu rosto magoado:  

Eu ando (vós me vedes) tão pesado;  

E a pastora infiel, que me faz guerra,  

É a mesma, que em seu semblante encerra  

A causa de um martírio tão cansado.  

Se a quereis conhecer, vinde comigo,  

Vereis a formosura, que eu adoro;  

Mas não; tanto não sou vosso inimigo:  

Deixai, não a vejais; eu vo-lo imploro;  

Que se seguir quiserdes, o que eu sigo,  

Chorareis, ó pastores, o que eu choro.  

IV  

Sou pastor; não te nego; os meus montados  

São esses, que aí vês; vivo contente  

Ao trazer entre a relva florescente  

A doce companhia dos meus gados;  

Ali me ouvem os troncos namorados,  

Em que se transformou a antiga gente;  

Qualquer deles o seu estrago sente;  

Como eu sinto também os meus cuidados.  

Vós, ó troncos, (lhes digo) que algum dia  

Firmes vos contemplastes, e seguros  

Nos braços de uma bela companhia;  

Consolai-vos comigo, ó troncos duros;  

Que eu alegre algum tempo assim me via;  

E hoje os tratos de Amor choro perjuros. 

V  

Se sou pobre pastor, se não governo  

Reinos, nações, províncias, mundo, e gentes;  

Se em frio, calma, e chuvas inclementes  

Passo o verão, outono, estio, inverno;  

Nem por isso trocara o abrigo terno  

Desta choça, em que vivo, coas enchentes  

Dessa grande fortuna: assaz presentes  

Tenho as paixões desse tormento eterno.  

Adorar as traições, amar o engano,  

Ouvir dos lastimosos o gemido,  

Passar aflito o dia, o mês, e o ano;  

Seja embora prazer; que a meu ouvido  

Soa melhor a voz do desengano,  

Que da torpe lisonja o infame ruído.  

VI  

Brandas ribeiras, quanto estou contente  

De ver-nos outra vez, se isto é verdade!  

Quanto me alegra ouvir a suavidade,  

Com que Fílis entoa a voz cadente!  

Os rebanhos, o gado, o campo, a gente,  

Tudo me está causando novidade:  

Oh como é certo, que a cruel saudade  

Faz tudo, do que foi, mui diferente!  

Recebei (eu vos peço) um desgraçado,  

Que andou té agora por incerto giro  

Correndo sempre atrás do seu cuidado:  

Este pranto, estes ais, com que respiro,  

Podendo comover o vosso agrado,  

Façam digno de vós o meu suspiro.  

VII  

Onde estou? Este sítio desconheço:  

Quem fez tão diferente aquele prado? 

Tudo outra natureza tem tomado;  

E em contemplá-lo tímido esmoreço.  

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço  

De estar a ela um dia reclinado:  

Ali em vale um monte está mudado:  

Quanto pode dos anos o progresso!  

Árvores aqui vi tão florescentes,  

Que faziam perpétua a primavera:  

Nem troncos vejo agora decadentes.  

Eu me engano: a região esta não era:  

Mas que venho a estranhar, se estão presentes  

Meus males, com que tudo degenera!  

VIII  

Este é o rio, a montanha é esta,  

Estes os troncos, estes os rochedos;  

São estes inda os mesmos arvoredos;  

Esta é a mesma rústica floresta.  

Tudo cheio de horror se manifesta,  

Rio, montanha, troncos, e penedos;  

Que de amor nos suavíssimos enredos  

Foi cena alegre, e urna é já funesta.  

Oh quão lembrado estou de haver subido  

Aquele monte, e as vezes, que baixando  

Deixei do pranto o vale umedecido!  

Tudo me está a memória retratando;  

Que da mesma saudade o infame ruído  

Vem as mortas espécies despertando.  

IX  

Pouco importa, formosa Daliana,  

Que fugindo de ouvir-me, o fuso tomes;  

Se quanto mais me afliges, e consomes,  

Tanto te adoro mais, bela serrana.  

Ou já fujas do abrigo da cabana,  

Ou sobre os altos montes mais te assomes, 

Faremos imortais os nossos nomes,  

Eu por ser firme, tu por ser tirana.  

Um obséquio, que foi de amor rendido,  

Bem pode ser, pastora, desprezado;  

Mas nunca se verá desvanecido:  

Sim, que para lisonja do cuidado,  

Testemunhas serão de meu gemido  

Este monte, este vale, aquele prado.  

X  

Eu ponho esta sanfona, tu, Palemo,  

Porás a ovelha branca, e o cajado;  

E ambos ao som da flauta magoado  

Podemos competir de extremo a extremo.  

Principia, pastor; que eu te não temo;  

Inda que sejas tão avantajado  

No cântico amebeu: para louvado  

Escolhamos embora o velho Alcemo.  

Que esperas? Toma a flauta, principia;  

Eu quero acompanhar-te; os horizontes  

Já se enchem de prazer, e de alegria:  

Parece, que estes prados, e estas fontes  

Já sabem, que é o assunto da porfia  

Nise, a melhor pastora destes montes.  

XI  

Formosa é Daliana; o seu cabelo,  

A testa, a sobrancelha é peregrina;  

Mas nada tem, que ver coa bela Eulina,  

Que é todo o meu amor, o meu desvelo:  

Parece escura a neve em paralelo  

Da sua branca face; onde a bonina  

As cores misturou na cor mais fina,  

Que faz sobressair seu rosto belo.  

Tanto os seus lindos olhos enamoram,  

Que arrebatados, como em doce encanto,  

Os que a chegam a ver, todos a adoram. 

Se alguém disser, que a engrandeço tanto  

Veja, para desculpa dos que choram  

Veja a Eulina; e então suspenda o pranto.  

XII  

Fatigado da calma se acolhia  

Junto o rebanho à sombra dos salgueiros;  

E o sol, queimando os ásperos oiteiros,  

Com violência maior no campo ardia.  

Sufocava-se o vento, que gemia  

Entre o verde matiz dos sovereiros;  

E tanto ao gado, como aos pegureiros  

Desmaiava o calor do intenso dia.  

Nesta ardente estação, de fino amante  

Dando mostras Daliso, atravessava  

O campo todo em busca de Violante.  

Seu descuido em seu fogo desculpava;  

Que mal feria o sol tão penetrante,  

Onde maior incêndio a alma abrasava.  

XIII  

Nise? Nise? onde estás? Aonde espera  

Achar-te uma alma, que por ti suspira,  

Se quanto a vista se dilata, e gira,  

Tanto mais de encontrar-te desespera!  

Ah se ao menos teu nome ouvir pudera  

Entre esta aura suave, que respira!  

Nise, cuido, que diz; mas é mentira.  

Nise, cuidei que ouvia; e tal não era.  

Grutas, troncos, penhascos da espessura,  

Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,  

Mostrai, mostrai-me a sua formosura.  

Nem ao menos o eco me responde!  

Ah como é certa a minha desventura!  

Nise? Nise? onde estás? aonde? aonde? 

XIV  

Quem deixa o trato pastoril amado  

Pela ingrata, civil correspondência,  

Ou desconhece o rosto da violência,  

Ou do retiro a paz não tem provado.  

Que bem é ver nos campos transladado  

No gênio do pastor, o da inocência!  

E que mal é no trato, e na aparência  

Ver sempre o cortesão dissimulado!  

Ali respira amor sinceridade;  

Aqui sempre a traição seu rosto encobre;  

Um só trata a mentira, outro a verdade.  

Ali não há fortuna, que soçobre;  

Aqui quanto se observa, é variedade:  

Oh ventura do rico! Oh bem do pobre!  

XV  

Formoso, e manso gado, que pascendo  

A relva andais por entre o verde prado,  

Venturoso rebanho, feliz gado,  

Que à bela Antandra estais obedecendo;  

Já de Corino os ecos percebendo  

A frente levantais, ouvis parado;  

Ou já de Alcino ao canto levantado,  

Pouco e pouco vos ides recolhendo;  

Eu, o mísero Alfeu, que em meu destino  

Lamento as sem-razões da desventura,  

A seguir-vos também hoje me inclino:  

Medi meu rosto: ouvi minha ternura;  

Porque o aspecto, e voz de um peregrino  

Sempre faz novidade na espessura.  

XVI 

Toda a mortal fadiga adormecia  

No silêncio, que a noite convidava;  

Nada o sono suavíssimo alterava  

Na muda confusão da sombra fria:  

Só Fido, que de amor por Lise ardia,  

No sossego maior não repousava;  

Sentindo o mal, com lágrimas culpava  

A sorte; porque dela se partia.  

Vê Fido, que o seu bem lhe nega a sorte;  

Querer enternecê-la é inútil arte;  

Fazer o que ela quer, é rigor forte:  

Mas de modo entre as penas se reparte;  

Que à Lise rende a alma, a vida à morte:  

Por que uma parte alente a outra parte.  

XVII  

Deixa, que por um pouco aquele monte  

Escute a glória, que a meu peito assiste:  

Porque nem sempre lastimoso, e triste  

Hei de chorar à margem desta fonte. 

Agora, que nem sombra há no horizonte,  

Nem o álamo ao zéfiro resiste,  

Aquela hora ditosa, em que me viste  

Na posse de meu bem, deixa, que conte.  

Mas que modo, que acento, que harmonia  

Bastante pode ser, gentil pastora,  

Para explicar afetos de alegria!  

Que hei de dizer, se esta alma, que te adora,  

Só costumada às vozes da agonia,  

A frase do prazer ainda ignora!  

XVIII  

Aquela cinta azul, que o céu estende  

À nossa mão esquerda, aquele grito,  

Com que está toda a noite o corvo aflito  

Dizendo um não sei quê, que não se entende;  

Levantar-me de um sonho, quando atende  

O meu ouvido um mísero conflito,  

A tempo, que o voraz lobo maldito  

A minha ovelha mais mimosa ofende;  

Encontrar a dormir tão preguiçoso  

Melampo, o meu fiel, que na manada  

Sempre desperto está, sempre ansioso;  

Ah! queira Deus, que minta a sorte irada:  

Mas de tão triste agouro cuidadoso  

Só me lembro de Nise, e de mais nada.  

XIX  

Corino, vai buscar aquela ovelha,  

Que grita lá no campo, e dormiu fora;  

Anda; acorda, pastor; que sai a Aurora:  

Como vem tão risonha, e tão vermelha!  

Já perdi noutro tempo uma parelha  

Por teu respeito; queira Deus, que agora  

Não se me vá também estoutra embora;  

Pois não queres ouvir, quem te aconselha. 

Que sono será este tão pesado!  

Nada responde, nada diz Corino:  

Ora em que mãos está meu pobre gado!  

Mas ai de mim! que cego desatino.  

Como te hei de acusar de descuidado,  

Se toda a culpa tua é meu destino!  

XX  

Ai de mim! como estou tão descuidado!  

Como do meu rebanho assim me esqueço,  

Que vendo-o trasmalhar no mato espesso,  

Em lugar de o tornar, fico pasmado!  

Ouço o rumor que faz desaforado  

O lobo nos redis; ouço o sucesso  

Da ovelha, do pastor; e desconheço  

Não menos, do que ao dono, o mesmo gado:  

Da fonte dos meus olhos nunca enxuta  

A corrente fatal, fico indeciso,  

Ao ver, quanto em meu dano se executa.  

Um pouco apenas meu pesar suavizo,  

Quando nas serras o meu mal se escuta;  

Que triste alívio! ah infeliz Daliso!  

XXI  

De um ramo desta faia pendurado  

Veja o instrumento estar do pastor Fido;  

Daquele, que entre os mais era aplaudido,  

Se alguma vez nas selvas escutado.  

Ser-lhe-á eternamente consagrado  

Um ai saudoso, um fúnebre gemido;  

Enquanto for no monte repetido  

O seu nome, o seu canto levantado.  

Se chegas a este sítio, e te persuade  

A algum pesar a sua desventura,  

Corresponde em afetos de piedade; 

Lembra-te, caminhante, da ternura  

De seu canto suave; e uma saudade  

Por obséquio dedica à sepultura.  

XXII  

Neste álamo sombrio, aonde a escura  

Noite produz a imagem do segredo;  

Em que apenas distingue o próprio medo  

Do feio assombro a hórrida figura;  

Aqui, onde não geme, nem murmura  

Zéfiro brando em fúnebre arvoredo,  

Sentado sobre o tosco de um penedo  

Chorava Fido a sua desventura.  

Às lágrimas a penha enternecida  

Um rio fecundou, donde manava  

D’ânsia mortal a cópia derretida:  

A natureza em ambos se mudava;  

Abalava-se a penha comovida;  

Fido, estátua da dor, se congelava.  

XXIII  

Tu sonora corrente, fonte pura,  

Testemunha fiel da minha pena,  

Sabe, que a sempre dura, e ingrata Almena  

Contra o meu rendimento se conjura:  

Aqui me manda estar nesta espessura,  

Ouvindo a triste voz da filomena,  

E bem que este martírio hoje me ordena,  

Jamais espero ter melhor ventura.  

Veio a dar-me somente uma esperança  

Nova idéia do ódio; pois sabia,  

Que o rigor não me assusta, nem me cansa:  

Vendo a tanto crescer minha porfia,  

Quis mudar de tormento; e por vingança  

Foi buscar no favor a tirania.  

XXIV 

Sonha em torrentes d’água, o que abrasado  

Na sede ardente está; sonha em riqueza  

Aquele, que no horror de uma pobreza  

Anda sempre infeliz, sempre vexado:  

Assim na agitação de meu cuidado  

De um contínuo delírio esta alma presa,  

Quando é tudo rigor, tudo aspereza,  

Me finjo no prazer de um doce estado.  

Ao despertar a louca fantasia  

Do enfermo, do mendigo, se descobre  

Do torpe engano seu a imagem fria:  

Que importa pois, que a idéia alívios cobre,  

Se apesar desta ingrata aleivosia,  

Quanto mais rico estou, estou mais pobre.  

XXV  

Não de tigres as testas descarnadas,  

Não de hircanos leões a pele dura,  

Por sacrifício à tua formosura,  

Aqui te deixo, ó Lise, penduradas:  

Ânsias ardentes, lágrimas cansadas,  

Com que meu rosto enfim se desfigura,  

São, bela ninfa, a vítima mais pura,  

Que as tuas aras guardarão sagradas.  

Outro as flores, e frutos, que te envia,  

Corte nos montes, corte nas florestas;  

Que eu rendo as mágoas, que por ti sentia:  

Mas entre flores, frutos, peles, testas,  

Para adornar o altar da tirania,  

Que outra vítima queres mais, do que estas ?  

XXVI  

Não vês, Nise, este vento desabrido,  

Que arranca os duros troncos? Não vês esta,  

Que vem cobrindo o céu, sombra funesta,  

Entre o horror de um relâmpago incendido? 

Não vês a cada instante o ar partido  

Dessas linhas de fogo? Tudo cresta,  

Tudo consome, tudo arrasa, e infesta,  

O raio a cada instante despedido.  

Ah! não temas o estrago, que ameaça  

A tormenta fatal; que o Céu destina  

Vejas mais feia, mais cruel desgraça:  

Rasga o meu peito, já que és tão ferina;  

Verás a tempestade, que em mim passa;  

Conhecerás então, o que é ruína.  

XXVII  

Apressa-se a tocar o caminhante  

O pouso, que lhe marca a luz do dia;  

E da sua esperança se confia,  

Que chegue a entrar no porto o navegante;  

Nem aquele sem termo passa avante  

Na longa, duvidosa e incerta via;  

Nem este atravessando a região fria  

Vai levando sem rumo o curso errante:  

Depois que um breve tempo houver passado,  

Um se verá sobre a segura areia,  

Chegará o outro ao sítio desejado:  

Eu só, tendo de penas a alma cheia,  

Não tenho, que esperar; que o meu cuidado  

Faz, que gire sem norte a minha idéia.  

XXVIII  

Faz a imaginação de um bem amado,  

Que nele se transforme o peito amante;  

Daqui vem, que a minha alma delirante  

Se não distingue já do meu cuidado.  

Nesta doce loucura arrebatado  

Anarda cuido ver, bem que distante; 

Mas ao passo, que a busco neste instante  

Me vejo no meu mal desenganado.  

Pois se Anarda em mim vive, e eu nela vivo,  

E por força da idéia me converto  

Na bela causa de meu fogo ativo;  

Como nas tristes lágrimas, que verto,  

Ao querer contrastar seu gênio esquivo,  

Tão longe dela estou, e estou tão perto.  

XXIX  

Ai Nise amada! se este meu tormento,  

Se estes meus sentidíssimos gemidos  

Lá no teu peito, lá nos teus ouvidos  

Achar pudessem brando acolhimento;  

Como alegre em servir-te, como atento  

Meus votos tributara agradecidos!  

Por séculos de males bem sofridos  

Trocara todo o meu contentamento.  

Mas se na incontrastável, pedra dura  

De teu rigor não há correspondência,  

Para os doces afetos de ternura;  

Cesse de meus suspiros a veemência;  

Que é fazer mais soberba a formosura  

Adorar o rigor da resistência.  

XXX  

Não se passa, meu bem, na noite, e dia  

Uma hora só, que a mísera lembrança  

Te não tenha presente na mudança,  

Que fez, para meu mal, minha alegria.  

Mil imagens debuxa a fantasia,  

Com que mais me atormenta e mais me cansa:  

Pois se tão longe estou de uma esperança,  

Que alívio pode dar-me esta porfia!  

Tirano foi comigo o fado ingrato;  

Que crendo, em te roubar, pouca vitória,  

Me deixou para sempre o teu retrato: 

Eu me alegrara da passada glória,  

Se quando me faltou teu doce trato,  

Me faltara também dele a memória.  

XXXI  

Estes os olhos são da minha amada:  

Que belos, que gentis, e que formosos!  

Não são para os mortais tão preciosos  

Os doces frutos da estação dourada.  

Por eles a alegria derramada,  

Tornam-se os campos de prazer gostosos;  

Em zéfiros suaves, e mimosos  

Toda esta região se vê banhada;  

Vinde, olhos belos, vinde; e enfim trazendo  

Do rosto de meu bem as prendas belas,  

Dai alívios ao mal, que estou gemendo:  

Mas ah delírio meu, que me atropelas!  

Os olhos, que eu cuidei, que estava vendo,  

Eram (quem crera tal!) duas estrelas.  

XXXII  

Se os poucos dias, que vivi contente,  

Foram bastantes para o meu cuidado,  

Que pode vir a um pobre desgraçado,  

Que a idéia de seu mal não acrescente!  

Aquele mesmo bem, que me consente,  

Talvez propício, meu tirano fado,  

Esse mesmo me diz, que o meu estado  

Se há de mudar em outro diferente.  

Leve pois a fortuna os seus favores;  

Eu os desprezo já; porque é loucura  

Comprar a tanto preço as minhas dores:  

Se quer, que me não queixe, a sorte escura,  

Ou saiba ser mais firme nos rigores,  

Ou saiba ser constante na brandura. 

XXXIII  

Aqui sobre esta pedra, áspera, e dura,  

Teu nome hei de estampar, ó Francelisa,  

A ver, se o bruto mármore eterniza  

A tua, mais que ingrata, formosura.  

Já cintilam teus olhos: a figura  

Avultando já vai; quanto indecisa  

Pasmou na efígie a idéia, se divisa  

No engraçado relevo da escultura.  

Teu rosto aqui se mostra; eu não duvido,  

Acuses meu delírio, quando trato  

De deixar nesta pedra o vulto erguido;  

É tosca a prata, o ouro é menos grato;  

Contemplo o teu rigor: oh que advertido!  

Só me dá esta penha o teu retrato!  

XXXIV  

Que feliz fora o mundo, se perdida  

A lembrança de amor, de amor a glória,  

Igualmente dos gostos a memória  

Ficasse para sempre consumida!  

Mas a pena mais triste, e mais crescida  

É ver, que em nenhum tempo é transitória  

Esta de amor fantástica vitória,  

Que sempre na lembrança é repetida.  

Amantes, os que ardeis nesse cuidado,  

Fugi de amor ao venenoso intento,  

Que lá para o depois vos tem guardado.  

Não vos engane o infiel contentamento;  

Que esse presente bem, quando passado,  

Sobrará para idéia do tormento.  

XXXV  

Aquele, que enfermou de desgraçado,  

Não espere encontrar ventura alguma:  

Que o Céu ninguém consente, que presuma,  

Que possa dominar seu duro fado. 

Por mais, que gire o espírito cansado  

Atrás de algum prazer, por mais em suma,  

Que porfie, trabalhe, e se consuma,  

Mudança não verá do triste estado.  

Não basta algum valor, arte, ou engenho  

A suspender o ardor, com que se move  

A infausta roda do fatal despenho:  

E bem que o peito humano as forças prove,  

Que há de fazer o temerário empenho,  

Onde o raio é do Céu, a mão de Jove.  

XXXVI  

Estes braços, Amor, com quanta glória  

Foram trono feliz na formosura!  

Mas este coração com que ternura  

Hoje chora infeliz esta memória! 

Quanto vês, é troféu de uma vitória,  

Que o destino em seu templo dependura:  

De uma dor esta estampa é só figura,  

Na fé oculta, no pesar notória.  

Saiba o mundo de teu funesto enredo;  

Por que desde hoje um coração amante  

De adorar teus altares tenha medo:  

Mas que empreendo, se ao passo, que constante  

Vou a romper a fé do meu segredo,  

Não há, quem acredite um delirante!  

XXXVII  

Continuamente estou imaginando,  

Se esta vida, que logro, tão pesada,  

Há de ser sempre aflita, e magoada,  

Se como o tempo enfim se há de ir mudando:  

Em golfos de esperança flutuando  

Mil vezes busco a praia desejada;  

E a tormenta outra vez não esperada  

Ao pélago infeliz me vai levando.  

Tenho já o meu mal tão descoberto,  

Que eu mesmo busco a minha desventura;  

Pois não pode ser mais seu desconcerto.  

Que me pode fazer a sorte dura,  

Se para não sentir seu golpe incerto,  

Tudo o que foi paixão, é já loucura!  

XXXVIII  

Quando, formosa Nise, dividido  

De teus olhos estou nesta distância,  

Pinta a saudade, à força de minha ânsia,  

Toda a memória do prazer perdido.  

Lamenta o pensamento amortecido  

A tua ingrata, pérfida inconstância; 

E quanto observa, é só a vil jactância  

Do fado, que os troféus tem conseguido.  

Aonde a dita está? aonde o gosto?  

Onde o contentamento? onde a alegria,  

Que fecundava esse teu lindo rosto?  

Tudo deixei, ó Nise, aquele dia,  

Em que deixando tudo, o meu desgosto  

Somente me seguiu por companhia.  

XXXIX  

Breves horas, Amor, há, que eu gozava  

A glória, que minha alma apetecia;  

E sem desconfiar da aleivosia,  

Teu lisonjeiro obséquio acreditava.  

Eu só à minha dita me igualava;  

Pois assim avultava, assim crescia,  

Que nas cenas, que então me oferecia,  

O maior gosto, o maior bem lograva;  

Fugiu, faltou-me o bem: já descomposta  

Da vaidade a brilhante arquitetura,  

Vê-se a ruína ao desengano exposta:  

Que ligeira acabou, que mal segura!  

Mas que venho a estranhar, se estava posta  

Minha esperança em mãos da formosura!  

XL  

Quem chora ausente aquela formosura,  

Em que seu maior gosto deposita,  

Que bem pode gozar, que sorte, ou dita,  

Que não seja funesta, triste, e escura!  

A apagar os incêndios da loucura  

Nos braços da esperança Amor me incita:  

Mas se era a que perdi, glória infinita,  

Outra igual que esperança me assegura! 

Já de tanto delírio me despeço;  

Porque o meu precipício encaminhado  

Pela mão deste engano reconheço.  

Triste! A quanto chegou meu duro fado!  

Se de um fingido bem não faço apreço,  

Que alívio posso dar a meu cuidado!  

XLI  

Injusto Amor, se de teu jugo isento  

Eu vira respirar a liberdade,  

Se eu pudesse da tua divindade  

Cantar um dia alegre o vencimento;  

Não lograras, Amor, que o meu tormento,  

Vítima ardesse a tanta crueldade;  

Nem se cobrira o campo da vaidade  

Desses troféus, que paga o rendimento:  

Mas se fugir não pude ao golpe ativo,  

Buscando por meu gosto tanto estrago,  

Por que te encontro, Amor, tão vingativo?  

Se um tal despojo a teus altares trago,  

Siga a quem te despreza, o raio esquivo;  

Alente a quem te busca, o doce afago.  

XLII  

Morfeu doces cadeias estendia,  

Com que os cansados membros me enlaçava;  

E quanto mal o coração passava,  

Em sonhos me debuxa a fantasia. 

Lise presente vi, Lise, que um dia  

Todo o meu pensamento arrebatava,  

Lise, que na minha alma impressa estava,  

Bem apesar da sua tirania.  

Corro a prendê-la em amorosos laços  

Buscando a sombra, que apertar intento;  

Nada vejo (ai de mim!) perco os meus passos.  

Então mais acredito o fingimento:  

Que ao ver, que Lise foge de meus braços,  

A crê pelo costume o pensamento.  

XLIII  

Quem és tu? (ai de mim!) eu reclinado  

No seio de uma víbora! Ah tirana!  

Como entre as garras de uma tigre hircana  

Me encontro de repente sufocado!  

Não era essa, que eu tinha posta ao lado,  

Da minha Nise a imagem soberana?  

Não era… mas que digo! ela me engana:  

Sim, que eu a vejo ainda no mesmo estado:  

Pois como no letargo a fantasia  

Tão cruel ma pintou, tão inconstante,  

Que a vi…? mas nada vi; que eu nada cria.  

Foi sonho; foi quimera; a um peito amante  

Amor não deu favores um só dia,  

Que a sombra de um tormento os não quebrante.  

XLIV  

Há quem confie, Amor, na segurança  

De um falsíssimo bem, com que dourando  

O veneno mortal, vás enganando  

Os tristes corações numa esperança!  

Há quem ponha inda cego a confiança  

Em teu fingido obséquio, que tomando  

Lições de desengano, não vá dando  

Pelo mundo certeza da mudança! 

Há quem creia, que pode haver firmeza  

Em peito feminil, quem advertido  

Os cultos não profane da beleza!  

Há inda, e há de haver, eu não duvido,  

Enquanto não mudar a Natureza  

Em Nise a formosura, o amor em Fido.  

XLV  

A cada instante, Amor, a cada instante  

No duvidoso mar de meu cuidado  

Sinto de novo um mal, e desmaiado  

Entrego aos ventos a esperança errante.  

Por entre a sombra fúnebre, e distante  

Rompe o vulto do alívio malformado;  

Ora mais claramente debuxado,  

Ora mais frágil, ora mais constante.  

Corre o desejo ao vê-lo descoberto;  

Logo aos olhos mais longe se afigura,  

O que se imaginava muito perto.  

Faz-se parcial da dita a desventura;  

Porque nem permanece o dano certo,  

Nem a glória tão pouco está segura.  

XLVI  

Não vês, Lise, brincar esse menino  

Com aquela avezinha? Estende o braço;  

Deixa-a fugir; mas apertando o laço,  

A condena outra vez ao seu destino?  

Nessa mesma figura, eu imagino,  

Tens minha liberdade; pois ao passo,  

Que cuido, que estou livre do embaraço,  

Então me prende mais meu desatino.  

Em um contínuo giro o pensamento  

Tanto a precipitar-me se encaminha,  

Que não vejo onde pare o meu tormento. 

Mas fora menos mal esta ânsia minha,  

Se me faltasse a mim o entendimento,  

Como falta a razão a esta avezinha.  

XLVII  

Que inflexível se mostra, que constante  

Se vê este penhasco! já ferido  

Do proceloso vento, e já batido  

Do mar, que nele quebra a cada instante!  

Não vi; nem hei de ver mais semelhante  

Retrato dessa ingrata, a que o gemido  

Jamais pode fazer, que enternecido  

Seu peito atenda às queixas de um amante.  

Tal és, ingrata Nise: a rebeldia,  

Que vês nesse penhasco, essa dureza  

Há de ceder aos golpes algum dia:  

Mas que diversa é tua natureza!  

Dos contínuos excessos da porfia,  

Recobras novo estímulo à fereza.  

XLVIII  

Traidoras horas do enganoso gosto,  

Que nunca imaginei, que o possuía,  

Que ligeiras passastes! mal podia  

Deixar aquele bem de ser suposto.  

Já de parte o tormento estava posto;  

E meu peito saudoso, que isto via,  

As imagens da pena desmentia,  

Pintando da ventura alegre o rosto.  

Desanda então a fábrica elevada,  

Que o plácido Morfeu tinha erigido,  

Das espécies do sono fabricada:  

Então é, que desperta o meu sentido,  

Para observar na pompa destroçada,  

Verdadeira a ruína, o bem fingido.  

XLIX 

Os olhos tendo posto, e o pensamento  

No rumo, que demanda, mais distante;  

As ondas bate o Grego Navegante,  

Entregue o leme ao mar, a vela ao vento;  

Em vão se esforça o harmonioso acento  

Da sereia, que habita o golfo errante;  

Que resistindo o espírito constante,  

Vence as lisonjas do enganoso intento.  

Se pois, ninfas gentis, rompe a Cupido  

O arco, a flecha, o dardo, a chama acesa  

De um peito entre os heróis esclarecido;  

Que vem buscar comigo a néscia empresa,  

Se inda mais, do que Ulisses atrevido,  

Sei vencer os encantos da beleza!  

L  

Memórias do presente, e do passado  

Fazem guerra cruel dentro em meu peito;  

E bem que ao sofrimento ando já feito,  

Mais que nunca desperta hoje o cuidado.  

Que diferente, que diverso estado  

É este, em que somente o triste efeito  

Da pena, a que meu mal me tem sujeito,  

Me acompanha entre aflito, e magoado!  

Tristes lembranças! e que em vão componho  

A memória da vossa sombra escura!  

Que néscio em vós a ponderar me ponho!  

Ide-vos; que em tão mísera loucura  

Todo o passado bem tenho por sonho;  

Só é certa a presente desventura.  

LI  

Adeus, ídolo belo, adeus, querido,  

Ingrato bem; adeus: em paz te fica;  

E essa vitória mísera publica,  

Que tens barbaramente conseguido. 

Eu parto, eu sigo o norte aborrecido  

De meu fado infeliz: agora rica  

De despojos, a teu desdém aplica  

O rouco acento de um mortal gemido.  

E se acaso alguma hora menos dura  

Lembrando-te de um triste, consultares  

A série vil da sua desventura;  

Na imensa confusão de seus pesares  

Acharás, que ardeu simples, ardeu pura  

A vítima de uma alma em teus altares.  

LII  

Que molesta lembrança, que cansada  

Fadiga é esta! vejo-me oprimido,  

Medindo pela mágoa do perdido  

A grandeza da glória já passada.  

Foi grande a dita sim; porém lembrada,  

Inda a pena é maior de a haver perdido;  

Quem não fora feliz, se o haver sido  

Faz, que seja a paixão mais avultada!  

Propício imaginei (é bem verdade)  

O malévolo fado: oh quem pudera  

Conhecer logo a hipócrita piedade!  

Mas que em vão esta dor me desespera,  

Se já entorpecida a enfermidade,  

Inda agora o remédio se pondera!  

LIII  

Ou já sobre o cajado te reclines,  

Venturoso pastor, ou já tomando  

Para a serra, onde as cabras vais chamando,  

A fugir os meus ais te determines.  

Lá te quero seguir, onde examines  

Mais vivamente um coração tão brando;  

Que gosta só de ouvir-te, ainda quando  

Mais sem-razão me acuses, mais crimines. 

Que te fiz eu, pastor? em que condenas  

Minha sincera fé, meu amor puro?  

As provas, que te dei, serão pequenas?  

Queres ver, que esse monte áspero, e duro  

Sabe, que és causa tu das minhas penas?  

Pergunta-lhe; ouvirás, o que te juro.  

LIV  

Ninfas gentis, eu sou, o que abrasado  

Nos incêndios de Amor, pude alguma hora,  

Ao som da minha cítara sonora,  

Deixar o vosso império acreditado.  

Se vós, glórias de amor, de amor cuidado,  

Ninfas gentis, a quem o mundo adora,  

Não ouvis os suspiros, de quem chora,  

Ficai-vos; eu me vou; sigo o meu fado.  

Ficai-vos; e sabei, que o pensamento  

Vai tão livre de vós, que da saudade  

Não receia abrasar-se no tormento.  

Sim; que solta dos laços a vontade,  

Pelo rio hei de ter do esquecimento  

Este, aonde jamais achei piedade.  

LV  

Em profundo silêncio já descansa  

Todo o mortal; e a minha triste idéia  

Se estende, se dilata, se recreia  

Pelo espaçoso campo da lembrança.  

Fatiga-se, prossegue, em vão se cansa;  

E neste vário giro, em que se enleia,  

Ao duvidoso passo já receia,  

Que lhe possa faltar a segurança.  

Que diferente tudo está notando!  

Que perplexo as imagens do perdido  

Num e noutro despojo vem achando! 

Este não é o templo (eu o duvido)  

Assim o afirma, assim o está mostrando:  

Ou morreu Nise, ou este não é Fido.  

LVI  

Tu, ninfa, quando eu menos penetrado  

Das violências de Amor vivia isento,  

Propondo-te então bela a meu tormento,  

Foste doce ocasião de meu cuidado.  

Roubaste o meu sossego, um doce agrado,  

Um gesto lindo, um brando acolhimento  

Foram somente o único instrumento,  

Com que deixaste o triunfo assegurado.  

Já não espero ter felicidade,  

Salvo se for aquela, que confio,  

Por amar-te, apesar dessa impiedade.  

Em prêmio dos suspiros, que te envio,  

Ou modera o rigor da crueldade,  

Ou torna-me outra vez meu alvedrio.  

LVII 

Bela imagem, emprego idolatrado,  

Que sempre na memória repetido,  

Estás, doce ocasião de meu gemido,  

Assegurando a fé de meu cuidado.  

Tem-te a minha saudade retratado;  

Não para dar alívio a meu sentido;  

Antes cuido; que a mágoa do perdido  

Quer aumentar coa pena de lembrado.  

Não julgues, que me alento com trazer-te  

Sempre viva na idéia; que a vingança  

De minha sorte todo o bem perverte.  

Que alívio em te lembrar minha alma alcança,  

Se do mesmo tormento de não ver-te,  

Se forma o desafogo da lembrança?  

LVIII  

Altas serras, que ao Céu estais servindo  

De muralhas, que o tempo não profana,  

Se Gigantes não sois, que a forma humana  

Em duras penhas foram confundindo?  

Já sobre o vosso cume se está rindo  

O Monarca da luz, que esta alma engana;  

Pois na face, que ostenta, soberana,  

O rosto de meu bem me vai fingindo.  

Que alegre, que mimoso, que brilhante  

Ele se me afigura! Ah qual efeito  

Em minha alma se sente neste instante!  

Mas ai! a que delírios me sujeito!  

Se quando no Sol vejo o seu semblante,  

Em vós descubro ó penhas o seu peito?  

LIX  

Lembrado estou, ó penhas, que algum dia,  

Na muda solidão deste arvoredo,  

Comuniquei convosco o meu segredo,  

E apenas brando o zéfiro me ouvia. 

Com lágrimas meu peito enternecia  

A dureza fatal deste rochedo,  

E sobre ele uma tarde triste, e quedo  

A causa de meu mal eu escrevia.  

Agora torno a ver, se a pedra dura  

Conserva ainda intacta essa memória,  

Que debuxou então minha escultura.  

Que vejo! esta é a cifra: triste glória!  

Para ser mais cruel a desventura,  

Se fará imortal a minha história.  

LX  

Valha-te Deus, cansada fantasia!  

Que mais queres de mim? que mais pretendes?  

Se quando na esperança mais te acendes,  

Se desengana mais tua porfia!  

Vagando regiões de dia em dia,  

Novas conquistas, e troféus empreendes:  

Ah que conheces mal, que mal entendes,  

Onde chega do fado a tirania!  

Trata de acomodar-te ao movimento  

Dessa roda volúvel, e descansa  

Sobre tão fatigado pensamento.  

E se inda crês no rosto da esperança,  

Examina por dentro o fingimento;  

E verás tempestade o que é bonança.  

LXI  

Deixemo-nos, Algano, de porfia;  

Que eu sei o que tu és, contra a verdade  

Sempre hás de sustentar, que a divindade  

Destes campos é Brites, não Maria!  

Ora eu te mostrarei inda algum dia,  

Em que está teu engano: a novidade,  

Que agora te direi, é, que a cidade  

Por melhor, do que todas a avalia. 

Há pouco, que encontrei lá junto ao monte  

Dous pastores, que estavam conversando,  

Quando passaram ambas para a fonte;  

Nem falaram em Brites: mas tomando  

Para um cedro, que fica bem defronte,  

O nome de Maria vão gravando.  

LXII  

Torno a ver-vos, ó montes; o destino  

Aqui me torna a pôr nestes oiteiros;  

Onde um tempo os gabões deixei grosseiros  

Pelo traje da Corte rico, e fino.  

Aqui estou entre Almendro, entre Corino,  

Os meus fiéis, meus doces companheiros,  

Vendo correr os míseros vaqueiros  

Atrás de seu cansado desatino.  

Se o bem desta choupana pode tanto,  

Que chega a ter mais preço, e mais valia,  

Que da cidade o lisonjeiro encanto;  

Aqui descanse a louca fantasia;  

E o que té agora se tornava em pranto,  

Se converta em afetos de alegria.  

LXIII  

Já me enfado de ouvir este alarido,  

Com que se engana o mundo em seu cuidado;  

Quero ver entre as peles, e o cajado,  

Se melhora a fortuna de partido.  

Canse embora a lisonja ao que ferido  

Da enganosa esperança anda magoado;  

Que eu tenho de acolher-me sempre ao lado  

Do velho desengano apercebido. 

Aquele adore as roupas de alto preço,  

Um siga a ostentação, outro a vaidade;  

Todos se enganam com igual excesso.  

Eu não chamo a isto já felicidade:  

Ao campo me recolho, e reconheço,  

Que não há maior bem, que a soledade.  

LXIV  

Que tarde nasce o Sol, que vagaroso!  

Parece, que se cansa, de que a um triste  

Haja de aparecer: quanto resiste  

A seu raio este sítio tenebroso!  

Não pode ser, que o giro luminoso  

Tanto tempo detenha: se persiste  

Acaso o meu delírio! se me assiste  

Ainda aquele humor tão venenoso!  

Aquela porta ali se está cerrando;  

Dela sai um pastor: outro assobia,  

E o gado para o monte vai chamando.  

Ora não há mais louca fantasia!  

Mas quem anda, como eu, assim penando,  

Não sabe, quando é noite, ou quando é dia.  

LXV  

Ingrata foste, Elisa; eu te condeno  

A injusta sem-razão; foste tirana,  

Em renderes, belíssima serrana,  

A tua liberdade ao néscio Almeno.  

Que achaste no seu rosto de sereno,  

De belo, ou de gentil, para inumana  

Trocares pela dele esta choupana,  

Em que tinhas o abrigo mais ameno?  

Que canto em teu louvor entoaria?  

Que te podia dar o pastor pobre?  

Que extremos, mais do que eu, por ti faria?  

O meu rebanho estas montanhas cobre:  

Eu os excedo a todos na harmonia;  

Mas ah que ele é feliz! Isto lhe sobre. 

LXVI  

Não te assuste o prodígio: eu, caminhante,  

Sou uma voz, que nesta selva habito;  

Chamei-me o pastor Fido; de um delito  

Me veio o meu estrago; eu fui amante.  

Uma ninfa perjura, uma inconstante  

Neste estado me pôs: do peito aflito,  

Por eterno castigo, arranco um grito,  

Que desengane o peregrino errante.  

Se em ti se dá piedade, ó passageiro,  

(Que assim o pede a minha sorte escura)  

Atende ao meu aviso derradeiro:  

Lágrimas não te peço, nem ternura:  

Por voto um desengano, te requeiro,  

Que consagres à minha sepultura.  

LXVII  

Não te cases com Gil, bela serrana;  

Que é um vil, um infame, um desastrado;  

Bem que ele tenha mais devesa, e gado,  

A minha condição é mais humana.  

Que mais te pode dar sua cabana,  

Que eu aqui te não tenha aparelhado?  

O leite, a fruta, o queijo, o mel dourado;  

Tudo aqui acharás nesta choupana:  

Bem que ele tange o seu rabil grosseiro,  

Bem que te louve assim, bem que te adore,  

Eu sou mais extremoso, e verdadeiro.  

Eu tenho mais razão, que te enamore:  

E se não, diga o mesmo Gil vaqueiro:  

Se é mais, que ele te cante, ou que eu te chore.  

LXVIII  

Apenas rebentava no oriente  

A clara luz da aurora, quando Fido,  

O repouso deixando aborrecido,  

Se punha a contemplar no mal, que sente. 

Vê a nuvem, que foge ao transparente  

Anúncio do crepúsculo luzido;  

E vê de todo em riso convertido  

O horror, que dissipara o raio ardente.  

Por que (diz) esta sorte, que se alcança  

Entre a sombra, e a luz, não sinto agora  

No mal, que me atormenta, e que me cansa?  

Aqui toda a tristeza se melhora:  

Mas eu sem o prazer de uma esperança  

Passo o ano, e o mês, o dia, a hora.  

LXIX  

Se à memória trouxeres algum dia,  

Belíssima tirana, ídolo amado,  

Os ternos ais, o pranto magoado,  

Com que por ti de amor Alfeu gemia;  

Confunda-te a soberba tirania,  

O ódio injusto, o violento desagrado,  

Com que atrás de teu olhos arrastado  

Teu ingrato rigor o conduzia.  

E já que enfim tão mísero o fizeste,  

Vê-lo-ás, cruel, em prêmio de adorar-te,  

Vê-lo-ás, cruel, morrer; que assim quiseste.  

Dirás, lisonjeando a dor em parte:  

Fui-te ingrata, pastor; por mim morreste;  

Triste remédio a quem não pode amar-te!  

LXX  

Breves horas, que em rápida porfia  

Ides seguindo infausto movimento,  

Oh como o vosso curso foi violento,  

Quando soubestes, que eu vos possuía!  

Já crédito vos dava; porque via  

Avultar meu feliz contentamento:  

Que é mui fácil num triste estar atento  

Aos enganos, que pinta a fantasia. 

Logrou-se o vosso fim; que foi levar-me  

Da falsa glória, do fingido gosto  

Ao cume, donde venho a despenhar-me:  

Assim a lei do fado tem disposto,  

Que haja o instantâneo bem de lisonjear-me;  

Por que o estrago, me diga, que é suposto.  

LXXI  

Eu cantei, não o nego, eu algum dia  

Cantei do injusto amor o vencimento;  

Sem saber, que o veneno mais violento  

Nas doces expressões falso encobria.  

Que amor era benigno, eu persuadia  

A qualquer coração de amor isento;  

Inda agora de amor cantara atento,  

Se lhe não conhecera a aleivosia.  

Ninguém de amor se fie: agora canto  

Somente os seus enganos; porque sinto,  

Que me tem destinado estrago tanto.  

De seu favor hoje as quimeras pinto:  

Amor de uma alma é pesaroso encanto;  

Amor de um coração é labirinto.  

LXXII  

Já rompe, Nise, a matutina aurora  

O negro manto, com que a noite escura,  

Sufocando do Sol a face pura,  

Tinha escondido a chama brilhadora.  

Que alegre, que suave, que sonora,  

Aquela fontezinha aqui murmura!  

E nestes campos cheios de verdura  

Que avultado o prazer tanto melhora!  

Só minha alma em fatal melancolia,  

Por te não poder ver, Nise adorada,  

Não sabe inda, que coisa é alegria; 

E a suavidade do prazer trocada,  

Tanto mais aborrece a luz do dia,  

Quanto a sombra da noite lhe agrada.  

LXXIII  

Quem se fia de Amor, quem se assegura  

Na fantástica fé de uma beleza,  

Mostra bem, que não sabe, o que é firmeza,  

Que protesta de amante a formosura.  

Anexa a qualidade de perjura  

Ao brilhante esplendor da gentileza,  

Mudável é por lei da natureza,  

A que por lei de Amor é menos dura.  

Deste, ó Fábio, que vês, desordenado,  

Ingrato proceder se é que examinas  

A razão, eu a tenho decifrado:  

São as setas de Amor tão peregrinas,  

Que esconde no gentil o golpe irado;  

Para lograr pacífico as ruínas.  

LXXIV  

Sombrio bosque, sítio destinado  

À habitação de um infeliz amante,  

Onde chorando a mágoa penetrante  

Possa desafogar o seu cuidado;  

Tudo quieto está, tudo calado;  

Não há fera, que grite; ave, que cante;  

Se acaso saberás, que tens diante  

Fido, aquele pastor desesperado!  

Escuta o caso seu: mas não se atreve  

A erguer a voz; aqui te deixa escrito  

No tronco desta faia em cifra breve:  

Mudou-se aquele bem; hoje é delito  

Lembrar-me de Marfisa; era mui leve:  

Não há mais, que atender; tudo está dito. 

LXXV  

Clara fonte, teu passo lisonjeiro  

Pára, e ouve-me agora um breve instante;  

Que em paga da piedade o peito amante  

Te será no teu curso companheiro.  

Eu o primeiro fui, fui o primeiro,  

Que nos braços da ninfa mais constante  

Pude ver da fortuna a face errante  

Jazer por glória de um triunfo inteiro.  

Dura mão, inflexível crueldade  

Divide o laço, com que a glória, a dita  

Atara o gosto ao carro da vaidade:  

E para sempre a dor ter n’alma escrita,  

De um breve bem nasce imortal saudade,  

De um caduco prazer mágoa infinita.  

LXXVI  

Enfim te hei de deixar, doce corrente  

Do claro, do suavíssimo Mondego;  

Hei de deixar-te enfim; e um novo pego  

Formará de meu pranto a cópia ardente.  

De ti me apartarei; mas bem que ausente,  

Desta lira serás eterno emprego;  

E quanto influxo hoje a dever-te chego,  

Pagará de meu peito a voz cadente.  

Das ninfas, que na fresca, amena estância  

Das tuas margens úmidas ouvia,  

Eu terei sempre n’alma a consonância;  

Desde o prazo funesto deste dia  

Serão fiscais eternos da minha ânsia  

As memórias da tua companhia.  

LXXVII  

Não há no mundo fé, não há lealdade;  

Tudo é, ó Fábio, torpe hipocrisia; 

Fingido trato, infame aleivosia  

Rodeiam sempre a cândida amizade.  

Veste o engano o aspecto da verdade;  

Porque melhor o vício se avalia:  

Porém do tempo a mísera porfia,  

Duro fiscal, lhe mostra a falsidade.  

Se talvez descobrir-se se procura  

Esta de amor fantástica aparência,  

É como à luz do Sol a sombra escura:  

Mas que muito, se mostra a experiência,  

Que da amizade a torre mais segura  

Tem a base maior na dependência!  

LXXVIII  

Campos, que ao respirar meu triste peito  

Murcha, e seca tornais vossa verdura,  

Não vos assuste a pálida figura,  

Com que o meu rosto vedes tão desfeito.  

Vós me vistes um dia o doce efeito  

Cantar do Deus de Amor, e da ventura;  

Isso já se acabou; nada já dura;  

Que tudo à vil desgraça está sujeito.  

Tudo se muda enfim: nada há, que seja  

De tão nobre, tão firme segurança,  

Que não encontre o fado, o tempo, a inveja.  

Esta ordem natural a tudo alcança;  

E se alguém um prodígio ver deseja,  

Veja meu mal, que só não tem mudança.  

LXXIX  

Entre este álamo, ó Lise, e essa corrente,  

Que agora estão meus olhos contemplando,  

Parece, que hoje o céu me vem pintando  

A mágoa triste, que meu peito sente.  

Firmeza a nenhum deles se consente  

Ao doce respirar do vento brando; 

O tronco a cada instante meneando,  

A fonte nunca firme, ou permanente.  

Na líquida porção, na vegetante  

Cópia daquelas ramas se figura  

Outro rosto, outra imagem semelhante:  

Quem não sabe, que a tua formosura  

Sempre móvel está, sempre inconstante,  

Nunca fixa se viu, nunca segura?  

LXXX  

Quando cheios de gosto, e de alegria  

Estes campos diviso florescentes,  

Então me vêm as lágrimas ardentes  

Com mais ânsia, mais dor, mais agonia.  

Aquele mesmo objeto, que desvia  

Do humano peito as mágoas inclementes,  

Esse mesmo em imagens diferentes  

Toda a minha tristeza desafia.  

Se das flores a bela contextura  

Esmalta o campo na melhor fragrância,  

Para dar uma idéia da ventura;  

Como, ó Céus, para os ver terei constância,  

Se cada flor me lembra a formosura  

Da bela causadora de minha ânsia?  

LXXXI  

Junto desta corrente contemplando  

Na triste falta estou de um bem que adoro;  

Aqui entre estas lágrimas, que choro,  

Vou a minha saudade alimentando.  

Do fundo para ouvir-me vem chegando  

Das claras hamadríades o coro;  

E desta fonte ao murmurar sonoro,  

Parece, que o meu mal estão chorando.  

Mas que peito há de haver tão desabrido,  

Que fuja à minha dor! que serra, ou monte  

Deixará de abalar-se a meu gemido! 

Igual caso não temo, que se conte;  

Se até deste penhasco endurecido  

O meu pranto brotar fez uma fonte.  

LXXXII  

Piedosos troncos, que a meu terno pranto  

Comovidos estais, uma inimiga  

É quem fere o meu peito, é quem me obriga  

A tanto suspirar, a gemer tanto.  

Amei a Lise; é Lise o doce encanto,  

A bela ocasião desta fadiga;  

Deixou-me; que quereis, troncos, que eu diga  

Em um tormento, em um fatal quebranto?  

Deixou-me a ingrata Lise: se alguma hora  

Vós a vedes talvez, dizei, que eu cego  

Vos contei… mas calai, calai embora.  

Se tanto a minha dor a elevar chego,  

Em fé de um peito, que tão fino adora,  

Ao meu silêncio o meu martírio entrego.  

LXXXIII  

Polir na guerra o bárbaro gentio,  

Que as leis quase ignorou da natureza,  

Romper de altos penhascos a rudeza,  

Desentranhar o monte, abrir o rio;  

Esta a virtude, a glória, o esforço, o brio  

Do Russiano Herói, esta a grandeza,  

Que igualou de Alexandre a fortaleza,  

Que venceu as desgraças de Dario:  

Mas se a lei do heroísmo se procura,  

Se da virtude o espírito se atende,  

Outra idéia, outra máxima o segura:  

Lá vive, onde no ferro não se acende;  

Vive na paz dos povos, na brandura:  

Vós a ensinais, ó Rei; em vós se aprende. 

LXXXIV  

Destes penhascos fez a natureza  

O berço, em que nasci! oh quem cuidara,  

Que entre penhas tão duras se criara  

Uma alma terna, um peito sem dureza! 

Amor, que vence os tigres, por empresa  

Tomou logo render-me; ele declara  

Contra o meu coração guerra tão rara,  

Que não me foi bastante a fortaleza.  

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,  

A que dava ocasião minha brandura,  

Nunca pude fugir ao cego engano:  

Vós, que ostentais a condição mais dura,  

Temei, penhas, temei; que Amor tirano,  

Onde há mais resistência, mais se apura.  

LXXXV  

Parece, ou eu me engano, que esta fonte  

De repente o licor deixou turvado;  

O céu, que estava limpo, e azulado,  

Se vai escurecendo no horizonte:  

Por que não haja horror, que não aponte  

O agouro funestíssimo, e pesado,  

Até de susto já não pasta o gado;  

Nem uma voz se escuta em todo o monte.  

Um raio de improviso na celeste  

Região rebentou; um branco lírio  

Da cor das violetas se reveste;  

Será delírio! não, não é delírio.  

Que é isto, pastor meu? que anúncio é este?  

Morreu Nise (ai de mim!) tudo é martírio.  

LXXXVI  

Musas, canoras musas, este canto  

Vós me inspirastes, vós meu tenro alento  

Erguestes brandamente àquele assento  

Que tanto, ó musas, prezo, adoro tanto. 

Lágrimas tristes são, mágoas, e pranto,  

Tudo o que entoa o músico instrumento;  

Mas se o favor me dais, ao mundo atento  

Em assunto maior farei espanto.  

Se em campos não pisados algum dia  

Entra a ninfa, o pastor, a ovelha, o touro,  

Efeitos são da vossa melodia;  

Que muito, ó musas, pois, que em fausto agouro  

Cresçam do pátrio rio à margem fria  

A imarcescível hera, o verde louro!  

Espírito imortal, tu que rasgando  

Essa esfera de luzes, vais pisando  

Do fresco Elísio a região bendita,  

Se nesses campos, onde a glória habita,  

Centro do gosto, do prazer estância,  

Entrada se permite à mortal ânsia  

De uma dor, de um suspiro descontente,  

Se lá relíquia alguma se consente  

Desta cansada, humana desventura,  

Não te ofendas, que a vítima tão pura,  

Que em meus ternos soluços te ofereço,  

Busque seguir-te, por lograr o preço  

Daquela fé, que há muito consagrada  

Nas aras da amizade foi jurada.  

Bem sabes, que o suavíssimo perfume,  

Que arder pode do amor no casto lume,  

Os suores não são deste terreno,  

Que odorífero sempre, e sempre ameno,  

Em coalhadas porções Chipre desata:  

Mais que os tesouros, que feliz recata  

A arábica região, amor estima  

Os incensos, que a fé, que a dor anima,  

Abrasados no fogo da lembrança.  

Esta pois a discreta segurança,  

Com que chega meu peito saudoso,  

A acompanhar teu passo venturoso, 

Oh sempre suspirado, sempre belo,  

Espírito feliz: a meu desvelo  

Não negues, eu te rogo, que constante  

Viva a teu lado sombra vigilante.  

Inda que estejas de esplendor cercada,  

Alma feliz, na lúcida morada,  

Que na pompa dos raios luminosa  

Pises aquela esfera venturosa,  

Que a teu merecimento o Céu destina;  

Nada impede, que a chama peregrina  

De uma saudade aflita, e descontente,  

Te assista acompanhando juntamente.  

Antes razão será, que debuxada  

Em meu tormento aquela flor prostrada,  

Sol em teus resplendores te eternizes,  

E Clície em minha mágoa me divises;  

Entre raios crescendo, entre lamentos,  

Em mim a dor, em ti os luzimentos.  

Se porém a infestar da Elísia esfera  

A contínua, brilhante primavera  

Chegar só pode o lastimoso rosto  

Deste meu triste, fúnebre desgosto,  

Eu desisto do empenho, em que deliro;  

E as asas encurtando a meu suspiro,  

Já não consinto, que seu vôo ardente  

A acompanhar-te suba diligente:  

Antes no mesmo horror, na sombra escura  

Da minha inconsolável desventura  

Eu quero lastimar meu fado tanto,  

Que sufocado em urnas de meu pranto,  

A tão funesto, líquido dispêndio,  

A chama apague deste ardente incêndio.  

Indigno sacrifício de uma pena,  

Que chega a perturbar a paz serena  

De umas almas, que em campos de alegria  

Gozam perpétua luz, perpétuo dia;  

Que adorando a concórdia, desconhecem  

Os sustos, que da inveja os braços tecem;  

Que ignoram o rigor do frio inverno;  

E que em brando concerto, em jogo alterno  

Gozam toda a suavíssima carreira  

De uma sorte risonha, e lisonjeira. 

Ali, entre os favônios mais suaves,  

A consonância ofenderei das aves,  

Que arrebatando alegres os ouvidos,  

Discorrem entre os círculos luzidos  

De toda a vegetante, amena estância.  

Ali pois as memórias de minha ânsia  

Não entrarão, Salício: que não quero  

Ser contigo tão bárbaro, e tão fero,  

Que um bem, em cuja posse estás ditoso,  

Triste magoe, infeste lastimoso.  

Cá viverá comigo a minha pena,  

Penhor inextinguível, que me ordena  

A sempre viva, e imortal lembrança.  

Ela me está propondo na vingança  

De meu fado inflexível, ó Salício,  

Aquele infausto, trágico exercício,  

Que os humanos progressos acompanha.  

Quem cuidara, que fosse tão estranha,  

Tão pérfida, tão ímpia a força sua,  

Que maltratar pudesse a idade tua,  

Adornada não só daquele raio,  

Que anima a flor, que se produz em maio;  

Mas inda de frutíferos abonos,  

Que antecipa a cultura dos outonos!  

Cinco lustros o Sol tinha dourado  

(Breves lustros enfim, Salício amado),  

Quando o fio dos anos encolhendo,  

Foi Átropos a teia desfazendo:  

Um golpe, e outro golpe preparava:  

Para empregá-lo a força lhe faltava;  

Que mil vezes a mão, ou de respeito,  

De mágoa, ou de temor, não pôs o efeito.  

Desatou finalmente o peregrino  

Fio, que já tecera. Ah se ao destino  

Pudera embaraçar nossa piedade!  

Não te glories, trágica deidade,  

De um triunfo, que levas tão precioso:  

Desar é de teu braço indecoroso;  

Que inda que a fúria tua o tem roubado,  

A nossa dor o guarda restaurado.  

Vive entre nós ainda na memória,  

A que ele nos deixou, eterna glória;  

Dispêndios preciosos de um engenho,  

Ou já da natureza desempenho,  

Ou para a nossa dor só concedido. 

Salício, o pastor nosso, tão querido,  

Prodígio foi no raro do talento,  

Sobre todo o mortal merecimento;  

E prodígio também com ele agora  

Se faz a mágoa, que o lastima e chora.  

A lutuosa vítima do pranto  

Melhor, que o imarcescível amaranto,  

Te cerca, ó alma grande, a urna triste;  

O nosso sentimento aqui te assiste,  

Em nênias entoando magoadas  

Hinos saudosos, e canções pesadas.  

Quiséramos na campa, que te cobre,  

Bem que o tormento ainda mais se dobre,  

Gravar um epitáfio, que declare,  

Quem o túmulo esconde; e bem que apare  

Qualquer engenho a pena, em nada atina.  

Vive outra vez: das cinzas da ruína  

Ressuscita, ó Salício; dita; escreve;  

Seja o epitáfio teu: a cifra breve  

Mostrará no discreto, e no polido,  

Que é Salício, o que aqui vive escondido.  

SONETO  

A vós, canoras ninfas, que no amado  

Berço viveis do plácido Mondego,  

Que sois da minha lira doce emprego,  

Inda quando de vós mais apartado;  

Vede a história infeliz, que Amor ordena,  

Jamais de fauno ou de pastor ouvida,  

Jamais cantada na silvestre avena.  

Se ela vos desagrada, por sentida,  

Sabei, que outra mais feia em minha pena  

Se vê entre estas serras escondida. 

Aonde levantado  

Gigante, a quem tocara,  

Por decreto fatal de Jove irado,  

A parte extrema, e rara  

Desta inculta região, vive Itamonte,  

Parto da terra, transformado em monte;  

De uma penha, que esposa  

Foi do invicto Gigante,  

Apagando Lucina a luminosa,  

A lâmpada brilhante,  

Nasci; tendo em meu mal logo tão dura,  

Como em meu nascimento, a desventura.  

Fui da florente idade  

Pela cândida estrada  

Os pés movendo com gentil vaidade;  

E a pompa imaginada  

De toda a minha glória num só dia  

Trocou de meu destino a aleivosia.  

Pela floresta, e prado  

Bem polido mancebo,  

Girava em meu poder tão confiado,  

Que até do mesmo Febo  

Imaginava o trono peregrino  

Ajoelhado aos pés do meu destino.  

Não ficou tronco, ou penha,  

Que não desse tributo  

A meu braço feliz; que já desdenha,  

Despótico, absoluto,  

As tenras flores, as mimosas plantas,  

Em rendimentos mil, em glórias tantas.  

Mas ah! Que Amor tirano  

No tempo, em que a alegria  

Se aproveitava mais do meu engano;  

Por aleivosa via  

Introduziu cruel a desventura,  

Que houve de ser mortal, por não ter cura.  

Vizinho ao berço caro,  

Aonde a pátria tive,  

Vivia Eulina, esse prodígio raro, 

Que não sei, se ainda vive,  

Para brasão eterno da beleza,  

Para injúria fatal da natureza.  

Era Eulina de Aucolo  

A mais prezada filha;  

Aucolo tão feliz, que o mesmo Apolo  

Se lhe prostra, se humilha  

Na cópia da riqueza florescente,  

Destro na lira, no cantar ciente.  

De seus primeiros anos  

Na beleza nativa,  

Humilde Aucolo, em ritos não profanos,  

A bela ninfa esquiva  

Em voto ao sacro Apolo consagrara;  

E dele em prêmio tantos dons herdara.  

Três lustros, todos d’ouro,  

A gentil formosura,  

Vinha tocando apenas, quando o louro,  

Brilhante Deus procura  

Acreditar do pai o culto atento,  

Na grata aceitação do rendimento.  

Mais formosa de Eulina  

Respirava a beleza;  

De ouro a madeixa rica, e peregrina  

Dos corações faz presa;  

A cândida porção da neve bela  

Entre as rosadas faces se congela.  

Mas inda, que a ventura  

Lhe foi tão generosa,  

Permite o meu destino, que uma dura,  

Condição rigorosa  

Ou mais aumente enfim, ou mais ateie  

Tanto esplendor; para que mais me enleie.  

Não sabe o culto ardente  

De tantos sacrifícios  

Abrandar o seu nume: a dor veemente,  

Tecendo precipícios,  

Já quase me chegava a extremo tanto,  

Que o menor mal era o mortal quebranto. 

Vendo inútil o empenho  

De render-lhe a fereza,  

Busquei na minha indústria o meu despenho:  

Com ingrata destreza  

Fiei de um roubo (oh mísero delito!)  

A ventura de um bem, que era infinito.  

Sabia eu, como tinha  

Eulina por costume,  

(Quando o maior planeta quase vinha  

Já desmaiando o lume,  

Para dourar de luz outro horizonte)  

Banhar-se nas correntes de uma fonte.  

A fugir destinado  

Com o furto precioso,  

Desde a pátria, onde tive o berço amado;  

Recolhi numeroso  

Tesouro, que roubara diligente  

A meu pai, que de nada era ciente.  

Assim pois prevenido  

De um bosque à fonte perto,  

Esperava o portento apetecido  

Da ninfa; e descoberto  

Me foi apenas, quando (oh dura empresa!)  

Chego; abraço a mais rara gentileza.  

Quis gritar; oprimida  

A voz entre a garganta  

Apolo? diz, Apol… a voz partida  

Lhe nega força tanta:  

Mas ah! Eu não sei como, de repente  

Densa nuvem me põe do bem ausente.  

Inutilmente ao vento  

Vou estendendo os braços:  

Buscar nas sombras o meu bem intento:  

Onde a meus ternos laços…!  

Onte te escondes, digo, amada Eulina?  

Quem tanto estrago contra mim fulmina?  

Mas ia por diante;  

Quando entre a nuvem densa  

Aparecendo o corpo mais brilhante,  

Eu vejo (oh dor imensa!) 

Passar a bela ninfa, já roubada  

Do Númen, a quem fora consagrada.  

Em seus braços a tinha  

O louro Apolo presa;  

E já ludíbrio da fadiga minha,  

Por amorosa empresa,  

Era despojo da deidade ingrata  

O bem, que de meus olhos me arrebata.  

Então já da paciência  

As rédeas desatadas,  

Toco de meus delírios a inclemência:  

E de todo apagadas  

Do acerto as luzes, busco a morte ímpia,  

De um agudo punhal na ponta fria.  

As entranhas rasgando,  

E sobre mim caindo,  

Na funesta lembrança soluçando,  

De todo confundindo  

Vou a verde campina; e quase exangue  

Entro a banhar as flores de meu sangue.  

Inda não satisfeito  

O Númen soberano,  

Quer vingar ultrajado o seu respeito;  

Permitindo em meu dano.  

Que em pequena corrente convertido  

Corra por estes campos estendido.  

E para que a lembrança  

De minha desventura  

Triunfe sobre a trágica mudança  

Dos anos, sempre pura,  

Do sangue, que exalei, ó bela Eulina,  

A cor inda conservo peregrina.  

Porém o ódio triste  

De Apolo mais se acende;  

E sobre o mesmo estrago, que me assiste,  

Maior ruína empreende:  

Que chegando a ser ímpia uma deidade,  

Excede toda a humana crueldade. 

Por mais desgraça minha,  

Dos tesouros preciosos  

Chegou notícia, que eu roubado tinha,  

Aos homens ambiciosos;  

E crendo em mim riquezas tão estranhas,  

Me estão rasgando as míseras entranhas.  

Polido o ferro duro  

Na abrasadora chama  

Sobre os meus ombros bate tão seguro,  

Quem nem a dor, que clama,  

Nem o estéril desvelo da porfia  

Desengana a ambiciosa tirania.  

Ah mortais! Até quando  

Vos cega o pensamento!  

Que máquinas estais edificando  

Sobre tão louco intento?  

Como nem inda no seu reino imundo  

Vive seguro o Báratro profundo!  

Idolatrando a ruína  

Lá penetrais o centro,  

Que Apolo não banhou, nem viu Lucina;  

E das entranhas dentro  

Da profanada terra,  

Buscais o desconcerto, a fúria, a guerra.  

Que exemplos vos não dita  

Do ambicioso empenho  

De Polidoro a mísera desdita!  

Que perigo o lenho,  

Que entregastes primeiro ao mar salgado,  

Que desenganos vos não tem custado!  

Enfim sem esperança,  

Que alívio me permita,  

Aqui chorando estou minha mudança;  

E a enganadora dita,  

Para que eu viva sempre descontente,  

Na muda fantasia está presente.  

Um murmurar sonoro  

Apenas se me escuta; 

Que até das mesmas lágrimas, que choro,  

A Deidade Absoluta  

Não consente ao clamor, se esforce tanto,  

Que mova à compaixão meu terno pranto.  

Daqui vou descobrindo  

A fábrica eminente  

De uma grande cidade; aqui polindo  

A desgrenhada frente,  

Maior espaço ocupo dilatado,  

Por dar mais desafogo a meu cuidado.  

Competir não pretendo  

Contigo, ó cristalino  

Tejo, que mansamente vais correndo:  

Meu ingrato destino  

Me nega a prateada majestade,  

Que os muros banha da maior cidade.  

As ninfas generosas,  

Que em tuas praias giram,  

Ó plácido Mondego, rigorosas  

De ouvir-me se retiram;  

Que de sangue a corrente turva, e feia  

Teme Ericina, Aglaura, e Deiopéia.  

Não se escuta a harmonia  

Da temperada avena  

Nas margens minhas; que a fatal porfia  

Da humana sede ordena,  

Se atenda apenas o ruído horrendo  

Do tosco ferro, que me vai rompendo.  

Porém se Apolo ingrato  

Foi causa deste enleio,  

Que muito, que da Musa o belo trato  

Se ausente de meu seio,  

Se o deus, que o temperado coro tece,  

Me foge, me castiga, e me aborrece!  

Enfim sou, qual te digo,  

O Ribeirão prezado,  

De meus engenhos a fortuna sigo;  

Comigo sepultado  

Eu choro o meu despenho; eles sem cura  

Choram também a sua desventura. 

ARÚNCIO  

ÉCLOGA V  

. Em vão te estás cansando o dia inteiro,  

Alcino, em perguntar, que significa  

Este, que vês cortar, triste letreiro: 

Ele não é debalde: aqui se explica  

Tudo, quanto há de grande, novo, e raro,  

Na pobre aldeia, e na cidade rica.  

Nada pode escapar do golpe avaro…  

(Diz cifra breve): agora entende;  

Que deste dito o assunto eu não declaro.  

. Se o meu juízo o caso compreende,  

Essa letra, que entalhas, e que admiro,  

Com a morte de Arúncio fala, ou prende.  

. Ah! Que arrancas um mísero suspiro  

Do centro de minha alma; o nome amado  

Me faz deixar a vida, que respiro.  

. Eu bem via, que estava o teu cuidado,  

Frondoso meu, lembrando a triste morte  

Desse caro pastor, tão estimado.  

. E quando esperas tu, que o fatal corte,  

Que de mim separou tão doce amigo,  

Possa romper de amor o laço forte!  

Primeiro se verá nascer o trigo  

No céu; dará primeiro a terra estrelas,  

Que tenha esta lembrança algum perigo.  

. Triste, e funesto caso! As ninfas belas  

Do pátrio Ribeirão tanto choraram,  

Que inda alívio não há, nem gosto entre elas.  

Os gados largos dias não pastaram;  

E mugindo à maneira de sentidos,  

A pele sobre os ossos encostaram.  

Os mochos pelas faias estendidos  

Enchendo a terra, e céu de mil agouros,  

Espalharam tristíssimos grasnidos.  

Os campos, que té ali se viam louros  

Com o matiz vistoso das searas,  

Perderam de repente seus tesouros.  

. Esses sinais, Alcino, se reparas, 

Dizem cousa maior, que sentimentos  

Consagrados da morte sobre as aras.  

Quando há mostras no céu, quando há portentos  

Na terra, algum segredo há, não sei onde,  

Que não é para humanos pensamentos.  

Ao meu conhecimento não se esconde  

A grandeza do golpe: mas alcanço,  

Que a tanta perda a dor não corresponde.  

De te buscar exemplos me não canso;  

Só te lembro porém, que o tronco duro  

Faz mais estrago que o arbusto manso.  

. O que queres dizer, eu conjeturo:  

No vime, e no carvalho há igual ruína:  

Igual a conseqüência eu não seguro.  

Aquele cai sem dano, este destina  

Fatal estrago a tudo, o que está posto  

Debaixo dele. É isto? Ora imagina.  

. Jove aparte de nós tanto desgosto:  

Baste, para avivar nossa saudade,  

O ser cortado em flor aquele rosto.  

Contente-se da morte a crueldade  

Em nos levar com passo tão ligeiro  

Uma tão bela, tão mimosa idade.  

Roubou-nos um pastor, que era o primeiro  

Entre os nossos do monte; ele nos dava  

As justas leis no campo, e no terreiro.  

Ele as dúvidas nossas concertava;  

E sendo maioral, por arte nova,  

Com respeito o agrado temperava.  

De mil virtudes suas nos deu prova;  

Sempre a bem dirigindo os nossos passos.  

Oh quanto esta lembrança a dor renova!  

. Ai! E com quanta mágoa nos teus braços  

Eu vi, Frondoso meu, que Arúncio esteve 

Desatando da vida os doces laços!  

. Meu pensamento, Amigo, não se atreve  

A lembrar-se (ai de mim!) da mortal hora.  

Em que vi acabar vida tão breve.  

Quem fora duro seixo, ou bronze fora,  

Para animar agora na lembrança  

Aquela imagem, com que esta alma chora!  

Eu vi, Alcino, eu vi, que na mudança  

Que do caduco e eterno bem fazia,  

A alma tinha cheia de esperança.  

Tudo, o que era mortal, aborrecia:  

A cópia dos seus gados, o cajado,  

(Bem que era de ouro fino) em nada havia.  

Em vão o molestava o doce estado  

Da honra, e da grandeza: a Jove entregue  

O espírito seguia outro cuidado.  

Mas ai, Alcino! A voz já não prossegue;  

Que tudo, o que a memória vem trazendo,  

Receio, Amigo, que a matar-me chegue.  

. As ninfas do Mondego estou já vendo  

Descerem para nós com triste pranto.  

Ou eu me engano, ou elas vêm dizendo:  

Se do lírio, da murta, e do amaranto  

Cercada deve ser a sepultura  

De Arúncio, a nós nos toca ofício tanto.  

Nós o criamos, com feliz ternura,  

Dando-lhe o mel, e o leite: a nós nos toca  

Mandar o corpo belo à terra dura.  

. De outro lado igualmente se provoca  

O Tejo (onde ele viu a luz primeira):  

E as ninfas do centro úmido convoca.  

A mim só se me deve a glória inteira  

(Fala o soberbo Tejo) eu o demando:  

Minha há de ser esta honra derradeira. 

Aqui lhe estou uma urna preparando,  

Coberta de um cipreste; onde a memória  

Seu nome viverá sempre guardando.  

Por mais que voe a idade transitória,  

Nunca se há de apagar aquele afeto,  

Que de Arúncio consagro à triste história.  

Durarás entre nós, Pastor discreto,  

Renovando a lembrança de Corino,  

Que da nossa saudade é inda objeto:  

Ele te deu o ser; tu peregrino  

Retrato de seus dotes, consolavas  

Nosso desejo, tão constante, e fino.  

Aquele caro irmão, que tanto amavas,  

Aônio, digo, aquele, a quem devias  

Toda a felicidade, que gozavas,  

Hoje lamenta teus saudosos dias;  

Hoje chora comigo: eu lhe desejo  

Alívio a tão cansadas agonias.  

. Oh! Contente-se embora o claro Tejo  

De haver ao mundo dado, quem lhe ganha  

Fama, e nome a seu reino assaz sobejo.  

Contente-se o Mondego, que na estranha  

Ventura de educá-lo, deu ao mundo,  

Quem lhe soube adquirir glória tamanha.  

O fado, que conhece inda o mais fundo,  

Quer, que guarde seu corpo a turva areia  

De outro rio, mais triste, e mais profundo.  

Do rio, que seu curso não refreia  

Até chegar, onde entra a grande costa,  

Que banha do Brasil salgada veia.  

Rio das Velhas se chama (se reposta  

Buscamos nos antigos, a pintura  

Das dórcades na história se vê posta). 

Os primeiros, que entraram na espessura  

Dos ásperos sertões, dizem, que acharam  

Três bárbaras, já velhas, nesta altura.  

. Das três Parcas melhor eles tomaram  

O nome desse rio; se é verdade,  

Que elas a vida humana governaram.  

Triste sejas, ó rio: a divindade  

De Apolo, que em ti cria o amável ouro,  

Se aparte do teu seio em toda a idade.  

Não sejas da ambição rico tesouro:  

Girar se vejam sobre as praias tuas  

Os brancos cisnes não, aves d’agouro.  

Do inverno as enxurradas levem cruas  

As sementeiras, que teus campos criam:  

Deixem só sobre a terra as pedras nuas.  

Os pobres navegantes, que se fiam  

Dessas funestas águas, desde agora  

Conheçam a traição, que não temiam.  

. E contra quem, Frondoso, inda em tal hora  

Se armam as pragas tuas! Um delírio  

Só para extremo tal desculpa fora.  

Se Jove é quem nos manda este martírio,  

Soframos o seu golpe: ao pastor belo  

Derramemos em cima o goivo, o lírio.  

O nosso Ribeirão traz o modelo  

Do enterro, que dispõe: nós entretanto  

Demos a conhecer nosso desvelo.  

Envolto o corpo em um cândido manto,  

Que distingue de Deus o brasão nobre,  

Aqui se oferece para o nosso pranto.  

Enquanto pois o corpo a terra cobre,  

Seguindo o teu princípio deixa, Amigo,  

Que um voto lhe consagre um pastor pobre,  

Um voto, que se escreva em seu jazigo. 

Soneto  

Nada pode escapar do golpe avaro,  

Alcino meu: que a Parca endurecida  

Corta igualmente os fios de uma vida  

Ao pastor pobre, ao cortesão preclaro.  

Cresça embora esse tronco altivo, e raro,  

Ostentação fazendo mais luzida;  

Viva embora entre humilde, entre abatida,  

Essa planta, a que o nome em vão declaro.  

Tudo há de achar o fim: bem que a vaidade  

Em uma, e outra glória faça estudo,  

Nada escapa à fatal voracidade.  

Eu, que chego a pensá-lo, fico mudo;  

E só tiro por certa esta verdade:  

Que, se Arúncio acabou, acaba tudo.  

POLIFEMO 

ÉCLOGA VIII  

Ó linda Galatéia,  

Que tantas vezes quantas  

Essa úmida morada busca Febo,  

Fazes por esta areia,  

Que adore as tuas plantas  

O meu fiel cuidado: já que Erebo  

As sombras descarrega sobre o mundo,  

Deixa o reino profundo:  

Vem, ó Ninfa, a meus braços;  

Que neles tece Amor mais ternos laços.  

Vem, ó Ninfa adorada;  

Que Ácis enamorado,  

Para lograr teu rosto precioso,  

Bem que tanto te agrada,  

Tem menos o cuidado,  

Menos sente a fadiga, e o rigoroso,  

Implacável rumor, que eu n’alma alento.  

Nele o merecimento . 

Minha dita assegura;  

Mas ah! que ele de mais tem a ventura.  

Esta frondosa faia  

A qualquer hora (ai triste!)  

Me observa neste sítio vigilante:  

Vizinho a esta praia  

Em uma gruta assiste,  

Quem não pode viver de ti distante.  

Pois de noite, e de dia  

Ao mar, ao vento, às feras desafia  

A voz do meu lamento:  

Ouvem-me as feras, ouve o mar, e o vento.  

Não sei, que mais pretendes  

Desprezas meu desvelo;  

E excedendo o rigor da crueldade,  

Com a chama do zelo  

O coração me acendes:  

Não é assim cruel a divindade.  

Abranda extremo tanto;  

Vem a viver nos mares do meu pranto:  

Talvez sua ternura  

Te faça a natureza menos dura.  

E se não basta o excesso  

De amor para abrandar-te,  

Quanto rebanho vês cobrir o monte,  

Tudo, tudo ofereço;  

Esta obra do divino Alcimedonte,  

Este branco novilho,  

Daquela parda ovelha tenro filho,  

De dar-te se contenta,  

Quem guarda amor, e zelos apascenta.  

BELISA E AMARÍLIS  

ÉCLOGA XV  

Agora, que do alto vem caindo  

A noite aborrecida, e só gostosa  

Para quem o seu mal está sentindo;  

Repitamos um pouco a trabalhosa 

Fadiga do passado; e neste assento  

Gozemos desta sombra deleitosa.  

O brando respirar do manso vento  

Por entre as frescas ramas, a doçura  

Dessa fonte, que move o passo lento;  

A doce quietação dessa espessura,  

O silêncio das aves, tudo, amigo,  

Ouvir a nossa mágoa hoje procura.  

Principia, Palemo; que eu contigo  

À memória trarei, quanto deixamos  

No sossego feliz do estado antigo.  

Que esperas, caro amigo? Sós estamos:  

Bem podemos falar: porque os extremos  

De nossa dor só nós testemunhamos.  

. Não vi depois, que o monte discorremos,  

Há tantos anos, sempre atrás do gado,  

Noite tão clara, como a que hoje temos:  

Mas muito estranho ser de teu agrado,  

Que despertemos inda a cinza fria  

Da lembrança do tempo já passado.  

Oh! não sei, o que pedes: bom seria,  

Que desse qualquer bem não cobre alento  

O estrondo, que talvez adormecia.  

Loucura é despertar no pensamento  

O fogo extinto já de uma memória:  

Não sabes, quanto é bárbaro o tormento.  

Em nos lembrarmos da perdida glória  

Nada mais conseguimos, que ao gemido  

Dar novo impulso na passada história.  

Não se desperte o mísero ruído;  

Que veremos, amigo, o desengano  

De um bem caduco, de um prazer fingido. 

Debalde é a cautela; que o tirano,  

Contínuo atormentar de uma lembrança  

Não o pode abrandar o esforço humano.  

Vê, como o teu ardor em vão se cansa;  

E quanto mais te negas a meu rogo,  

Despertas mais dos fados a mudança.  

Buscar no esquecimento o desafogo  

É não saber, que neste infausto empenho  

Se ateia da memória mais o fogo.  

Diga-o minha alma: porque nela tenho  

Impressa sempre a imagem de uma dita,  

Em que firmava o gosto o desempenho.  

Recompensa uma dor quase infinita  

A grandeza do bem; a minha história  

Deixando em vivo sangue n’alma escrita.  

Quero estragar mil vezes a memória,  

Meu amado Corebo, e a cada instante  

Torna mais viva a imagem de uma glória.  

Oh tirana pensão de um peito amante!  

Que só fora feliz, se a água bebera  

(Quando perde o seu bem) do Lete errante;  

Se na idéia pintada não trouxera  

A contínua lembrança de um veneno,  

Que Amor dissimulado oferecera.  

Ah! Que soluço, amigo, estalo, e peno;  

Quando me lembra a hora, em que o tirano  

Fado roubou-me estado tão sereno.  

. Caminhas, ó Palemo, de teu dano  

Como insensível: Vês, que não tem modo  

Da funesta lembrança o golpe insano.  

Bem me advertes, Corebo: eu me acomodo  

Ao pensamento teu; e divertida  

Fique a memória minha já de todo.  

Ao cântico sonoro te convida  

Esta flauta, que é fama em nós guardada, 

Que foi de Alfeu um tempo possuída.  

Eu a tomo, e com ela se te agrada,  

Alterno o verso; e seja aquele, que antes  

Cantamos lá na nossa retirada.  

Se me lembra, assim era: Vinde, errantes  

Sombras, a sufocar-nos: porque a inveja  

É só fiscal dos míseros amantes.  

Ficai, belas ovelhas: assim seja  

Convosco mais propício o duro fado;  

Que pastor mais feliz vos guie, e reja.  

Aqui te deixo, rústico cajado;  

Que algum tempo, apesar do empenho cego,  

De ninguém, só de mim, foste logrado.  

Tu, Amarílis, adorado emprego,  

Toma conta de duas ovelhinhas,  

Que mais que todas amo: eu tas entrego.  

Verás, Belisa, entre essas prendas minhas,  

Que eu teci junto às margens dessa fonte,  

De vime desigual duas cestinhas.  

De ti, que ficas pois, saudoso monte,  

Me despeço; e talvez sem esperança  

De tornar a ver mais este horizonte.  

. Ficai-vos em pacífica bonança,  

Ó ninfas; que perdido o vosso agrado,  

Me ausento a lamentar tanta mudança.  

. Adeus, pastores; vós, que em doce estado  

Tantas vezes nos bailes, na floresta  

Me vistes sempre alegre, e sossegado;  

. De vós me aparta agora a lei funesta;  

E o tormento, a que esta alma está rendida,  

Bem o meu sentimento manifesta.  

Hei de trazer na idéia sempre unida  

A imagem de Amarílis, que venero,  

E que estimo inda mais, que a própria vida. 

. Alegria jamais nenhuma espero;  

Antes nesta saudosa soledade,  

Por último remédio, a morte quero.  

. Adeus, bela Amarílis; a vontade,  

Por ser único bem, levo abrasada  

Na chama inextinguível da saudade.  

. Adeus, Belisa; adeus, ninfa adorada:  

Veja-se neste campo eternamente  

A tua formosura celebrada.  

. Basta já de cantar: que do oriente  

Já rompe o Sol vermelho; e o manso gado  

Os balidos esforça de impaciente.  

As nuvens vão correndo; e a este lado  

O resplendor se vê, com que a Aurora  

Vai escondendo o rosto magoado.  

Das lágrimas saudosas com que chora  

Se derrama o orvalho; aves, e plantas  

Despertam, levantando a voz sonora.  

. Eu guiarei o gado se tu cantas:  

Que prosseguindo tu, de meu tormento  

O excesso ao menos, e o rigor quebrantas.  

Não me negues, se podes, esse alento.  

PESCADORES  

ÉCLOGA XVI  

Já vinha a manhã clara  

Dourando os horizontes,  

E os empinados montes  

Com a rosada luz, que os prateara,  

Mostravam na campina  

O lírio, o goivo, a rosa, e a bonina.  

Nas ondas cintilava  

O rosto luminoso,  

Com que de Cíntia o esposo  

À pobre terra clara luz mandava, 

Formando um transparente,  

Na verde relva, resplendor luzente.  

Ambos os pescadores,  

Alicuto e Marino,  

A quem o Deus Menino  

Ateou na água o fogo dos amores,  

As redes recolhiam;  

E de bastante peixe o barco enchiam.  

A praia procurando  

Vinham tão mansamente,  

Que nem o mar se sente  

Ferido de um, e outro remo brando,  

Quando do seu destino  

Começou a queixar-se assim Marino.  

Alicuto o acompanha  

Coa sonora harmonia,  

Que, há tempos, aprendia  

De um pastor, que viera da montanha;  

E a seu modo vertendo  

Para a ninfa do mar, ia dizendo.  

Se assim como a manhã clara, e brilhante  

É da minha adorada o belo rosto,  

Como naufraga o peito vacilante,  

No incerto mar de um fúnebre desgosto!  

Eu vejo, que se alegram neste instante  

Cheios de glória, de prazer, e gosto,  

Este mar, esta praia, esta ribeira:  

Só não há cousa, que alegrar me queira.  

Deiopéia adorada, a luz do dia,  

Como funesta nasce a um desgraçado!  

Quanto me foi suave a noite fria,  

Tanto o rosto da Aurora me é pesado:  

O silêncio da noite dirigia  

O sossego também de meu cuidado;  

E apenas foge o horror da sombra escura,  

Quando mais viva toco a desventura.  

Que importa, que em contínua sentinela  

Eu ande os crespos mares descobrindo,  

Se ingrata sempre a luz da minha estrela  

Me vai desses teus olhos dividindo! 

O vento, que suave entesa a vela,  

A meu ligeiro barco a estrada abrindo,  

Solícito me guia a esta praia;  

Onde sem ver-te o coração desmaia.  

Três dias há, que giro, amada minha,  

Desesperado nesta mortal ânsia  

De ver o prêmio, que guardado tinha  

A meu peito fiel tua inconstância.  

Outra ventura, outra mercê convinha,  

De tanto amor, à fatigada instância  

E quando o não mereça na verdade,  

Quem há, que não te estranhe a falsidade!  

Abrasadas as ondas deste pego  

Tenho já com meus ais, com meus suspiros;  

Ele me escuta; eu cada vez mais cego  

Acuso a sem-razão de teus retiros.  

De meus males ao passo, que o navego,  

O peso sente, e se revolve em giros;  

E até as brutas penhas mais pesadas  

Estão de meu tormento magoadas.  

Qual o peixe inocente, que enganado  

Bebe no curvo anzol a morte feia,  

Sem ver, que o pescador lhe tem armado  

Escondida prisão, em que se enleia;  

Ou qual o navegante, que enlevado  

No canto está da pérfida sereia;  

E prova sem cautela a morte dura  

Entre os penhascos, onde o mar murmura.  

Qual foge o grande monstro, que o mar cria,  

Do arpão ferido, em sangue o mar banhando;  

Quando cuida, que escapa à morte fria,  

O alento pouco, e pouco vai deixando;  

O destro pescador, que a presa fia  

Do agudo ferro, a linha então largando,  

Quando de todo já exangue o sente,  

O barco chega, e o colhe mais contente.  

Tal eu, doce inimiga, sem cautela  

Adorava a traição de um falso engano,  

Que no teu rosto, ó sempre ingrata, e bela. 

Soube dissimular Amor tirano;  

Acreditando aquela indústria, aquela  

Mal escondida imagem de meu dano,  

Imaginei, que o que era aleivosia,  

De um fino, e puro coração nascia.  

Não de outra sorte a bárbara destreza  

Dessa homicida mão, dessa alma ingrata,  

Depois de assegurar minha firmeza,  

De mim se ausenta, e com rigor me mata:  

Ah! quanto temo, ninfa, que a fereza  

De tua condição, que assim me trata,  

Nestas ondas em penha convertida,  

Pague o delito de roubar-me a vida!  

De que serve, que eu traga do mar fundo,  

A preço de fadiga tão pesada,  

Esta, que em tal excesso estima o mundo,  

Rama, que fora d’água é encarnada?  

De que serve; que lá do mais profundo  

Venha oferecer-te a pérola engraçada,  

Se encontro sem-razões, iras, rigores?  

Se os teus desprezos sempre são maiores?  

Para trazer-te o peixe delicado,  

No rio escondo as nassas, ninfa minha;  

E ao levantar seu peso desejado,  

Vejo saltar a truta e a tainha:  

Não me fica também no mar salgado  

O retorcido búzio, e a conchinha;  

Que supondo ser cousa, que te agrade,  

Tudo te vem render minha vontade.  

Em pensamentos mil eu me desfaço,  

Ao ver traição tão bárbara, e tão crua;  

Rompo o vestido, o corpo despedaço,  

Quando me lembra a falsidade tua:  

Loucuras mil, mil desatinos faço,  

Sem pejo, e sem vergonha; em pele nua  

Corro esta praia, giro esta ribeira;  

E ninguém há, que socorrer me queira.  

Mas que é isto, Alicuto? O nosso canto  

Quase que vai passando a impaciência.  

. Que há de ser, se o meu mísero quebranto 

Se apodera de mim com tal violência?  

. Mal haja o ter amor, que pode tanto.  

Mal haja o conhecer uma inclemência.  

Que intentar-lhe fugir é desatino.  

. Que assim o sinto eu, e tu, Marino.  

. Temos chegado ao porto: larga o remo;  

Salta na praia tu; que eu aqui fico;  

A ver, se vejo a ninfa, por quem gemo,  

E a quem as minhas lágrimas dedico.  

Não fiques não, Marino: porque temo  

Maior mágoa; que a dor, que sacrifico.  

Carreguemos o peixe; que na aldeia  

Talvez estejam Glauce; e Deiopéia.  

Assim se acomodavam;  

 E o peixe dividindo  

Entre ambos, vão subindo  

Um levantado oiteiro, a que chegavam,  

Deixando entanto posta  

No barco a vara, a rede ao Sol exposta.  

FILENO A ALGANO  

EPÍSTOLA II  

Depois, Algano amado,  

Que por mais verde, e plácido terreno,  

Deixaste o sítio ameno,  

Onde alegre pascia o manso gado,  

Tomou minha saudade  

Triste posse no horror da soledade.  

De todos os pastores  

Foi mui sentida a tua ausência dura:  

Que o bem de uma ventura  

Se se perde, inda os mesmos moradores  

Da choça, que os abriga,  

Sabem sentir: oh quanto a dor obriga! 

Pouco importa a cultura,  

E agudeza maior do pensamento:  

Que a força do tormento  

Sobre a mesma rudeza o estrago apura;  

E quem melhor discorre,  

É, quem buscando alívio, menos morre.  

Talvez mais lisonjeia  

Esta no meu pesar néscia jactância;  

Por ser minha ignorância  

Alimento, em que a mágoa mais se ateia:  

Que a ser mais entendido,  

Não fora o meu tormento tão crescido.  

Não somente o efeito  

De tão ingrato mal em nós sentimos;  

Mas, se bem advertimos,  

Tudo ao grande pesar ficou sujeito:  

Que fez a ausência tua  

A saudade em nós razão comua.  

O rio, que algum dia  

Líquida habitação das ninfas era,  

A cor, que a primavera  

Nestes frondosos álamos vestia,  

Tudo perde o seu brio:  

Não tem o álamo cor, ninfas o rio.  

Não se ouvem já sonoras,  

(Quando argüindo o adúltero condena),  

Queixas da filomena;  

E até do tempo as carregadas horas  

Correm mais dilatadas;  

E parece, que a dor as faz pesadas.  

É tudo horror; é tudo  

Uma pálida imagem da tristeza.  

Habita esta aspereza  

O fúnebre silêncio, o assombro mudo:  

Que tanto pode, tanto  

De tua ausência o mísero quebranto.  

Ah meu Algano caro,  

Doce consolação do campo ameno!  

O teu triste Fileno 

Busca debalde alívio: que o reparo  

Da saudade está posto  

Na imagem só de teu alegre rosto:  

Não só o seu alento,  

Porém inda dos campos a alegria,  

A clara luz do dia,  

Das aves o canoro, e doce acento,  

E quanto tem mudado  

Da tua ausência o desumano estado.  

Apressa, apressa o passo,  

Com que hoje alegras as regiões do Tejo;  

Rompe já o embaraço,  

Que se interpõe à vista do desejo:  

E possa alegre ver-te,  

Algano meu, quem sabe merecer-te.  

ROMANCE I  

Pescadores do Mondego,  

Que girais por essa praia,  

Se vós enganais o peixe,  

Também Lise vos engana.  

Vós ambos sois pescadores;  

Mas com diferença tanta,  

Vós ao peixe armais com redes,  

Ela co’olhos vos arma.  

Vós rompeis o mar undoso:  

Para assegurar a caça;  

Ela aqui no porto espera,  

Para lograr a filada.  

Vós dissimulais o enredo,  

Fingindo no anzol a traça;  

Ela vos expõe patentes  

As redes, com que vos mata.  

Vós perdeis a noite, e dia  

Em contínua vigilância;  

Ela em um só breve instante  

Consegue a presa mais alta. 

Guardai-vos, pois, pescadores,  

Dos olhos dessa tirana;  

Que para troféus de Lise  

Despojos de Alcemo bastam.  

Enquanto as ondas ligeiras  

Desta corrente tão clara  

Inundarem mansamente  

Estes álamos, que banham;  

Eu espero, que a memória  

O conserve nestas águas,  

Por padrão dos desenganos,  

Por triunfo de uma ingrata.  

E na frondosa ribeira  

Deste rio, triste a alma  

Girará sempre avisando,  

Quem lhe soube ser tão falsa.  

ANTANDRA  

ROMANCE II  

Pastora do branco arminho,  

Não me sejas tão ingrata:  

Que quem veste de inocente,  

Não se emprega em matar almas.  

Deixa o gado, que conduzes;  

Não o guies à montanha:  

Porque em poder de uma fera,  

Não pode haver segurança.  

Mas ah! Que o teu privilégio,  

É louco, quem não repara:  

Pois suavizando o martírio,  

Obrigas mais, do que matas.  

Eu fugirei; eu, pastora,  

Tomarei somente as armas;  

E hão de conspirar comigo  

Todo o campo, toda a praia 

Tenras ovelhas,  

Fugi de Antandra;  

Que é flor fingida,  

Que áspides cria, que venenos guarda.  

ALTÉIA  

ROMANCE III  

Aquele pastor amante,  

Que nas úmidas ribeiras  

Deste cristalino rio  

Guiava as brancas ovelhas;  

Aquele, que muitas vezes  

Afinando a doce avena,  

Parou as ligeiras águas,  

Moveu as bárbaras penhas;  

Sobre uma rocha sentado  

Caladamente se queixa:  

Que para formar as vozes,  

Teme, que o ar as perceba.  

Os olhos levanta, e busca  

Desde o tosco assento aquela  

Distância, aonde, discorro,  

Que tem a origem da pena:  

E depois que esmorecidos  

Da dor os olhos, na imensa  

Explicação do tormento,  

Sufocada a luz, se cegam;  

Só às lágrimas recorre,  

Deixando-se ouvir apenas  

Daquelas árvores mudas,  

Daquela mimosa relva.  

Com torpe aborrecimento  

A companhia despreza  

Dos pastores, e das ninfas;  

Nada quer; tudo o molesta.  

Erguido sobre o penhasco  

Já vê, se é grande a eminência: 

Por que busque o fim da vida,  

Na violência de uma queda.  

Já louco se precipita;  

E já se suspende: a mesma  

Apetência do tormento  

Maior tormento lhe ordena.  

Pastores, vede a Daliso;  

Vede o estado qual seja  

De um pastor, que em outro tempo  

Glória destes montes era:  

Vede, como sem cuidado  

Pastar pelos montes deixa  

As ovelhas of’recidas  

Às iras de qualquer fera.  

Vede, como desta rama,  

Que fúnebre está, suspensa  

Deixou a lira, que há pouco,  

Pulsava pela floresta.  

Vede, como já não gosta  

Da barra, dança, e carreira;  

E ao pastoril exercício  

De todo já se rebela.  

Segundo o vulto, que neste  

Rústico penedo ostenta,  

Cuido, que o fizeram louco  

Desprezos da bela Altéia.  

ANARDA  

ROMANCE IV  

Aonde levas, pastora,  

Essas tenras ovelhinhas?  

Que para seu mal lhes basta  

O seres tu, quem as guia. 

Acaso vão para o vale,  

Ou para a serra vizinha?  

Vão acaso para o monte,  

Que lá mais distante fica?  

Vão porventura, pastora,  

A beber as cristalinas,  

Doces águas, que discorrem  

Por entre estas verdes silvas?  

Ah! Quem sabe, triste gado,  

Onde a maior homicida  

Dos corações, e das almas,  

Convosco agora caminha!  

Presumir, que cuidadosa  

Vos conduz à serra altiva,  

Imaginar, que à ribeira  

Vos vai levando propícia;  

Não o posso, não o posso;  

Quando a conjetura avisa,  

Que mal as ovelhas guarda;  

Quem as almas traz perdidas.  

Porém se a vossa ventura  

De mais nobre se acredita,  

Se podeis vencer de Anarda . . .  

A condição sempre esquiva;  

Ela vos conduza: os passos  

Segui da minha inimiga;  

Enquanto para cantá-la  

Meu instrumento se afina.  

Mais que Títiro suave,  

Aqui sentado à sombria  

Copa desta verde faia,  

Chorarei as penas minhas.  

Farei, com que soe o bosque  

A seu nome: esta campina,  

Vereis, como só de Anarda  

A doce glória respira; 

Essas árvores, e troncos  

Concorrendo à harmonia  

Do meu canto, Orfeu nos vales,  

Cuidarão, que ressuscita.  

Eu repetirei contente  

A cantilena, que tinha  

Com Alcimedon composto,  

Quando no monte vivia.  

Direi aquelas cadências,  

Que à casca de uma cortiça  

Encomendou meu cuidado,  

De meu sangue com a tinta.  

Pastora (se bem me lembra  

Assim meu verso dizia),  

Mais branca, que a mesma neve,  

Mais bela, do que a bonina;  

Eu sou, quem estas ribeiras,  

Sou, quem estes campos pisa,  

Atrás de uma alma, que roubas,  

Tão presa, como rendida.  

Não te peço, que ma entregues:  

Porque quem ta sacrifica,  

De meu voluntário culto  

Faz ostentação mais fina:  

Quero só, que ma não deixes,  

Que a não desampares; inda  

Quando de Letes saudoso  

Vires a margem sombria.  

Mais seguro, e mais constante,  

Que aquela mimosa ninfa,  

Que no côncavo das penhas,  

Por lei do destino, habita.  

Eco serei destas rochas,  

Aonde os clamores firam  

Dos corações, que se queixam,  

Das almas, que se lastimam. 

Assim, cândidas ovelhas,  

Assim clamarei: sozinhas  

Correi embora contentes  

O vale, o monte, a campina.  

À LIRA DESPREZO  

Que busco, infausta lira,  

Que busco no teu canto,  

Se ao mal, que cresce tanto,  

Alívio me não dás?  

A alma, que suspira,  

Já foge de escutar-te:  

Que tu também és parte  

De meu saudoso mal.  

II  

Tu foste (eu não o nego)  

Tu foste em outra idade  

Aquela suavidade,  

Que Amor soube adorar;  

De meu perdido emprego  

Tu foste o engano amado:  

Deixou-me o meu cuidado;  

Também te hei de deixar.  

III  

Ah! De minha ânsia ardente  

Perdeste o caro império:  

Que já noutro hemisfério  

Me vejo respirar.  

O peito já não sente  

Aquele ardor antigo:  

Porque outro norte sigo,  

Que fino amor me dá.  

IV  

Amei-te (eu o confesso)  

E fosse noite, ou dia,  

Jamais tua harmonia  

Me viste abandonar. 

Qualquer penoso excesso,  

Que atormentasse esta alma,  

A teu obséquio em calma  

Eu pude serenar.  

V  

Ah! Quantas vezes, quantas  

Do sono despertando,  

Doce instrumento brando,  

Te pude temperar!  

Só tu (disse) me encantas;  

Tu só, belo instrumento,  

Tu és o meu alento;  

Tu o meu bem serás.  

VI  

Vai-te; que já não quero,  

Que devas a meu peito  

Aquele doce efeito,  

Que me deveste já.  

Contigo já mais fero  

Só trato de quebrar-te:  

Também hás de ter parte  

No estrago de meu mal.  

VII  

Não saberás desta alma  

Segredos, que sabias,  

Naqueles doces dias,  

Que Amor soube alentar.  

Se aquela ingrata calma  

Foi só tormenta escura,  

Na minha desventura  

Também naufragarás.  

VIII  

Nise, que a cada instante  

Teu números ouvia,  

Ou fosse noite, ou dia,  

Jamais não te ouvirá.  

Cansado o peito amante  

Somente ao desengano 

O culto soberano  

Pretende tributar.  

IX  

De todo enfim deixada  

No horror deste arvoredo,  

Em ti seu tosco enredo  

Aracne tecerá.  

Em paz se fique a amada,  

Por quem teu canto inspiras;  

E tu, que a paz me tiras,  

Também te fica em paz.  

À LIRA PALINÓDIA  

I  

Vem, adorada Lira,  

Inspira-me o teu canto:  

Só tu a impulso tanto  

Todo o prazer me dás.  

Já a alma não suspira;  

Pois chega a escutar-te:  

De todo, ou já em parte  

Vai-se ausentando o mal.  

II  

Não cuides, que te nego  

Tributos de outra idade:  

A tua suavidade  

Eu sei inda adorar;  

Desse perdido emprego  

Eu busco o encanto amado;  

Amando o meu cuidado,  

Jamais te hei de deixar.  

III  

Vê, de meu fogo ardente,  

Qual é o ativo império:  

Que em todo este hemisfério  

Se atende respirar.  

O coração, que sente  

Aquele incêndio antigo, 

No mesmo mal, que sigo,  

Todo o favor me dá.  

IV  

Se tanto bem confesso,  

Ou seja noite, ou dia,  

Jamais essa harmonia  

Espero abandonar.  

Não há de a tanto excesso,  

Não há de, não, minha alma  

Desta amorosa calma  

Meus olhos serenar.  

V  

Ah! Quantas ânsias, quantas  

Agora despertando,  

A teu impulso brando  

Eu venho a temperar!  

No gosto, em que me encantas,  

Suavíssimo instrumento,  

Em ti só busco o alento;  

Que eterno me serás.  

VI  

Contigo partir quero  

As mágoas de meu peito;  

Quanto diverso efeito,  

Do que provaste já!  

Não cuides, que sou fero;  

Porque já quis quebrar-te:  

No meu delírio em parte  

Desculpa tem meu mal.  

VII  

Se tu só de minha alma  

O caro amor sabias,  

Contigo só meus dias  

Eterno hei de alentar.  

Bem que ameace a calma  

Fatal tormenta escura,  

Da minha desventura  

Jamais naufragarás. 

VIII  

Clamar a cada instante  

O nome, que me ouvia,  

Ou seja noite, ou dia,  

O bosque me ouvirá.  

Bem, que a meu culto amante  

Resista o desengano,  

O voto soberano  

Te espero tributar.  

IX  

Não temas, que deixada  

Te ocupe este arvoredo,  

Onde meu triste enredo  

O fado tecerá;  

Conhece, ó Lira amada,  

O afeto, que me inspiras;  

Na mesma paz, que tiras  

Me dás a melhor paz.  

O PASTOR DIVINO  

CANTATA I  

Onde, Enigma adorado,  

Onde guias perplexo,  

Confuso, e pensativo  

Da minha idéia o vacilante curso?  

. Que sombras, que portentos  

Encobres a meus olhos,  

Ó ignorado arcano,  

Que lá dessa distância  

Inspiras de teu raio esforço ativo?  

Eu vejo, que rompendo  

Da noite o manto escuro  

Vem cintilando a chama,  

Que sobre o mundo todo a luz derrama.  

. Eu vejo, que do Oriente  

A luminosa estrela, 

Que os passos encaminha,  

Quase a buscar a terra se avizinha.  

Chegai, pastores,  

Vinde contentes;  

Que o novo sol  

Já resplandece.  

Oh que glória, que dita, que gosto  

Nestes campos se vê respirar!  

É esta a flor mimosa,  

Que da Vara bendita,  

Venturosa, jucunda,  

Da raiz de Jessé brota fecunda!  

. É este o pastor belo,  

Que o rebanho espalhado  

Vem acaso buscar! É este aquele,  

Que por montes, e vales  

Conduz a tenra ovelha,  

E mais que a própria vida,  

Ama o rebanho seu! É este aquele,  

Que as ovelhas conhece e a seu preceito  

Obedecendo belas,  

Também o seu Pastor conhecem elas!  

Eu o tinha alcançado,  

De enigmáticas sombras na figura,  

Unigênito Filho  

Do Eterno Criador. O Filho amado  

De Abrão o testifica;  

. Jacó o compreende, Abel o explica.  

Brandas ninfas, que no centro  

Habitais dessa corrente,  

Vinde ao novo sol nascente  

Vosso obséquio tributar.  

Já do monte descendo  

Vem o pobre pastor: de brancas flores,  

Ou já grinaldas, ou coroas tece,  

E ao novo Deus contente as oferece.  

. Já de lírios, e rosas,  

Pela glória, que alcança, 

Análise da obra

Entenda os principais aspectos da obra de Gregório de Matos

Para entender a obra de Gregório de Matos é preciso conhecer o contexto histórico no qual ele está inserido, uma vez que grande parte de sua poesia (principalmente a satírica) faz alusão a duas de suas maiores referências: o Brasil e Portugal. No final do século XVII, Portugal estava em decadência, sendo que o sistema escravocrata não conseguia mais sustentar a economia da Metrópole. Assim, Portugal impunha ao Brasil uma série de restrições comerciais a fim de conseguir vantagens. Por conta disso, os senhores do engenho e proprietários rurais brasileiros passaram a enfrentar uma forte crise econômica.

Em contrapartida à crise do mercado de escravos e do engenho de açúcar, surge uma rica burguesia composta por imigrantes vindos de Portugal e que comandavam o comércio na colônia. Esta rica burguesia dominou também o mercado de crédito e outros contratos reais. Por conta do monopólio gerado por estes imigrantes, agravou-se a crise dos proprietários rurais brasileiros e a hostilidade entre esses dois grupos foi crescendo ao longo dos anos.

Gregório de Matos, como filho de senhor de engenho e bacharel em Direito, encontra-se em uma posição central neste cenário, tendo condições de pensar e analisar seu momento histórico sob diversas perspectivas. Gregório de Matos, apesar de ter tido diversos cargos de poder, resolve desligar-se de tudo e viver à margem da sociedade como um poeta itinerante, percorrendo o recôncavo baiano e frequentando festas e rodas boemias. Porém, mesmo distanciado da sociedade hipócrita a qual ele condena, ele também se insere nela, pois Gregório ainda depende da nobreza e vive à custa de favores deles. Ao mesmo tempo, ele encara o papel do portador de uma “voz crítica” sobre essa mesma sociedade na qual ele se insere.

Conforme explica José Wisnik, o poema satírico de Gregório de Matos é marcado por essa “briga” entre uma sociedade “normal” – que é a do homem bem nascido” – e outra “absurda” – que é composta por pessoas oportunistas, mas que estão instaurados no poder. Porém, no caso de Gregório de Matos a “sociedade absurda” é real, pois é a Bahia onde ele vive; e a sociedade considerada “normal”, que é a dos homens bem nascidos e cultos, é absurda perante a realidade baiana. Assim, ambas são consideradas absurdas uma perante a outra. Esse impasse é o da realidade histórica desse momento, coexistindo em um mesmo locas duas Bahia: uma “normal”, que é vista com ar nostálgico, e outra “absurda” e amaldiçoada.

Se de um lado existe a obra satírica de Gregório de Matos, onde ele expõe e critica sem nenhum pudor a sociedade da época, de outro lado há também a poesia lírica produzida por ele. Seus poemas líricos são comumente divididos em: lírico-amorosos e burlescos/eróticos. Há ainda uma vasta produção de poemas com temática religiosa. Porém, há de se ressaltar que a ironia e crítica social existente nos poemas satíricos não são deixados de lado em sua produção lírica e religiosa.

Na poesia amorosa e erótica de Gregório de Matos, o tema básico continua sendo o choque de opostos: “espírito” e “matéria”, “ascetismo” e “sensualismo”. Essa visão dualista também aparece na figura da mulher desejada, sendo que esta representa uma espécie de “anjo-demônio”. É interessante notar que na obra de Gregório de Matos o “outro lado” em um par de opostos sempre irá conter um pedaço do seu par antagônico. Ou seja, se tomarmos por exemplo a figura da mulher, quando ela aparece como um ser angelical, ela também terá uma parte demoníaca, e vice-versa.

Dessa forma, a poesia lírico-amorosa de Gregório de Matos é construída em torno de contradições e pares de opostos, utilizando figuras de linguagens como o oximoro, que reforça essas contradições. Porém, deve-se ter em mente que estas contradições não se anulam e a mensagem final que o poeta passa é de que “diferença é identidade”. Já a poesia erótica de Gregório de Matos, na qual o poeta utiliza uma linguagem mais direta e explícita do que na lírico-amorosa, o amor carnal aparece como forma de libertação do corpo e, por consequência, do indivíduo também.

Por fim, tem-se a poesia religiosa de Gregório de Matos, que também é trabalhada constantemente através de pares de opostos. O ambiente fortemente cristão do período barroco, faz-se presente aqui, onde os pares antagônicos da vez é a “culpa” versus “perdão”. Gregório de Matos faz uso da poesia para se libertar e ela é a única forma possível de salvação para o poeta. Esta salvação não se dá somente entre o poeta e Deus, mas também perante a sociedade e si mesmo.

Poemas representativos

“A Jesus Cristo Nosso Senhor”
Este soneto é um dos maiores representantes da poesia sacra/religiosa de Gregório de Matos. Segundo a crítica literária, este poema foi inspirado em outros poemas de autoria desconhecida já existentes em língua espanhola. Outra inspiração do poeta foi é a passagem do evangelho de São Lucas, onde Jesus Cristo conta a parábola da ovelha perdida e conclui dizendo que “há grande alegria nos céus quando um pecador se arrepende de seus pecados e dá meia volta”.

Nesse soneto, a temática da “culpa” versus “perdão” aparece posta em xeque, pois o poeta utiliza da linguagem para conseguir seu perdão e salvação. Enfrentando o poder divino, o eu-lírico pede para que Deus cobre os pecados cometidos por ele, pois quanto mais pecados ele comete, mais Deus se esforça para perdoa-los. Assim, da mesma forma como o poder divino precisa perdoar, o pecador precisa pecar para poder ser perdoado.

Estruturalmente, o soneto é composto por 14 versos decassílabos com rimas no esquema ABBA, ABBA, ABC, ABC.

“Aos Afetos, e lágrimas derramadas na ausência da dama a quem queria bem”
Este soneto faz parte da produção lírico-amorosa de Gregório de Matos. Estruturalmente é composto por 14 versos decassílabos com rimas ABBA, ABBA, CDC, DCD.

O poema é composto através de antíteses, figura de linguagem que aproxima pares de opostos, o que é uma marca da poesia lírico-amorosa de Gregório de Matos. A primeira parte do soneto, que é formada pelos dois quartetos, é marcada por um tom de lamentação onde o eu-lírico vive um embate entre “paixão” (simbolizado através de imagens como “fogo” e incêndio”) e “dor” (simbolizado por “neve” e “água”, remetendo à “lagrimas”). Na segunda parte, o eu-lírico se indaga sobre a natureza contraditória do amor, fazendo lembrar a lírica do poeta português Camões (“Amor é fogo que arde sem se ver/É ferida que dói e não se sente”). A ideia de que “diferença é identidade” presente na poesia amorosa de Gregório de Matos se faz presente de modo exemplar nesse soneto.

“Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia”
Este soneto satírico é composto por versos decassílabos em esquema de rimas ABBA, ABBA, CDE, CDE.

A Bahia de outrora aparece com um tom nostálgico, e o poeta critica a degradação moral e econômico no qual a cidade se encontra no momento. Os ladrões e oportunistas (comerciantes, etc) são os detentores do poder político e econômico, enquanto os trabalhadores honestos encontram-se na pobreza. Esse tom nostálgico e de lamentação aparece também no famoso soneto “À cidade da Bahia”, em que vemos a decadência dos engenhos de açúcar e a ascensão de uma burguesia oportunista segundo o poeta.

Comentário do professor

O professor Gilberto Alves da Rocha (Giba), do Curso Apogeu de Curitiba (PR), comenta que existem dois pontos principais na obra de Gregório de Matos que devem ser observados pelo estudante. O primeiro é o intenso conflito de ordem espiritual, típico do período barroco: de um lado, o Teocentrismo (teoria segundo a qual Deus é o centro do universo) e, de outro, o Antropocentrismo (segundo esta teoria, o homem é o centro do universo e este deve ser analisado de acordo com sua relação com o homem). Em sua poesia religiosa, Gregório consegue filtrar com maestria essa dualidade vivida pelo homem da época. Já o segundo ponto a ser observado, comenta o prof. Giba, é a linguagem do autor: assim como Gregório procura utilizar um vocabulário mais formal nos poemas líricos e religiosos, ele utiliza gírias e até termos de baixo calão nos poemas satíricos.

Pensando-se na prova do vestibular, o prof. Giba afirma que, por se tratar de obra poética, os aspectos formais (rima, métrica, vocabulário) são bastante explorados pelas bancas examinadoras e o aluno deve estar atento a questões desse tipo. Quanto aos temas tratados por Gregório de Matos, a temática do “carpe diem” (aproveitar o dia) está muito presente em sua poesia lírica, e é geralmente associada à ideia da efemeridade, um dos temas mais caros aos artistas barrocos. Por fim, o prof. Giba lembra a importância de Gregório de Matos dentro da literatura brasileira, pois ele foi o primeiro artista brasileiro a filtrar os desmandos políticos e o cotidiano da Bahia, Capital da Província na época.

Sobre Gregório de Matos

Gregório de Matos Guerra nasceu no dia 7 de abril de 1633, na cidade de Salvador (BA). Filho de um fidalgo português que se tornou senhor de engenho no Recôncavo baiano com uma brasileira, Gregório de Matos recebeu educação formal e se formou em Direito na Universidade de Coimbra, Portugal. Embora não se saiba muito sobre sua vida, acredita-se que ele tenha chegado a trabalhar como juiz em Lisboa e tenha frequentado a Corte Portuguesa, conhecendo inclusive o rei D. Pedro II. Nesse período ele também teria se casado, mas ficou viúvo algum tempo depois e teria entrado em decadência junto ao reinado de D. Pedro II.

De volta a Salvador, Gregório de Matos trabalhou como Arcebispo e como tesoureiro-mór, mas foi desligado de suas funções por volta de 1683. A certa altura, casou-se com Maria dos Povos e vendeu as terras que havia recebido como herança. Conforme conta-se, Gregório de Matos guardou todo o dinheiro conseguido com a venda em um saco dentro de casa e gastava tudo sem economizar. Enquanto isso, trabalhava também como advogado e ficou famoso por escrever argumentações judiciais na forma de versos.

Após um tempo, Gregório de Matos largou tudo e tornou-se cantador itinerante pelo Recôncavo baiano, frequentando festas populares e convivendo com o povo. Nesse período ele passa a escrever cada vez mais poesias satíricas e eróticas, o que lhe rendeu o apelido “Boca do Inferno”. Além disso, ele escreveu diversas poesias de crítica política à corrupção e aos fidalgos locais, o que fez com que ele fosse deportado para Angola.

Gregório de Matos só pode voltar ao Brasil em 1695, mas com a condição de que ele abandonasse os versos satíricos e fosse morar em Pernambuco. Nessa altura da vida, ele volta-se para a religião e escreve diversos poemas pedindo perdão a Deus pelos pecados que cometeu. Falece em data incerta no ano de 1696 em Recife (PE).

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