Livro A Erva do Diabo Carlos Castaneda PDF Download

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Parte Um

Os Ensinamentos 

As anotações sobre minha primeira sessão com Dom Juan são datadas de 23 de junho de 1961. Foi nessa ocasião que começaram os ensinamentos. Eu já tinha estado com ele várias vezes antes disso, apenas como observador. Em todas as oportunidades, pedia-lhe que me falasse a respeito do peiote. Todas as vezes ele não fazia caso de meu pedido, mas nunca deixava o assunto inteiramente de lado, e interpretei a hesitação dele como sendo uma possibilidade de poder falar a respeito de seus conhecimentos com um pouco-mais de insistência. 

Naquela determinada sessão, ele me mostrou claramente que poderia atender à minha solicitação desde que eu possuísse a necessária clareza de espírito e de propósito com relação ao que lhe perguntara. Era-me impossível satisfazer essa condição, pois eu só lhe pedira para me falar sobre o peiote como um meio de estabelecer uma comunicação com ele. Pensei que seu conhecimento do assunto poderia torná-lo mais disposto a falar e mais aberto, possibilitando-me assim uma entrada em seu conhecimento sobre as propriedades das plantas. Mas ele interpretou meu pedido ao pé da letra, e estava preocupado com meus objetivos ao querer saber acerca do peiote. 

Sexta-feira, 23 de junho de 1961 

– Quer-me ensinar alguma coisa a respeito do peiote, Dom Juan? 

– Por que quer saber disso? 

– Eu queria mesmo saber a respeito. Só querer saber não basta como motivo? – Não! Tem de procurar em seu íntimo para saber por que um rapaz como você quer empreender essa tarefa de aprendizagem. 

– Por que você mesmo aprendeu sobre isso, Dom Juan? 

– Por que quer saber? 

– Talvez nós dois tenhamos os mesmos motivos. 

– Duvido. Sou índio. Não temos os mesmos caminhos. 

– O único motivo que tenho é que desejo saber a respeito, só para aprender. Mas asseguro-lhe, Dom Juan, não tenho más intenções. 

– Acredito em você. Já o fumeguei.  

– Perdão? 

– Não importa agora. Sei quais são suas intenções. 

– Quer dizer que leu meus pensamentos? 

– Poda ser. 

– Então quer-me ensinar? 

– Não! 

– Por eu não ser índio? 

– Não. Porque você não conhece seu íntimo. O importante é você saber exatamente por que quer envolver-se. Aprender a respeito de Mescalito é uma coisa muito séria. Se você fosse índio, só o seu desejo seria suficiente. Muito poucos índios têm esse desejo. 

Domingo, 25 de junho de 1961 

Fiquei com Dom Juan a tarde toda na sexta-feira. Eu ia partir por volta das sete da noite. Estávamos sentados na varanda em frente da casa dele e eu resolvi perguntar-lhe mais uma vez sobre os ensinamentos. Era quase uma pergunta de rotina e eu já estava quase esperando que ele tornasse a recusar-se. Perguntei-lhe se havia um jeito de ele aceitar apenas

o meu desejo de aprender, como se eu fosse um índio. Ele custou muito a responder. Fui obrigado a esperar, pois ele parecia estar procurando resolver alguma coisa. Por fim ele me disse que havia um meio, e passou á expor um problema. Disse que eu estava muito cansado de ficar sentado no chão e que o que eu devia fazer era encontrar um ponto (sitio) no chão em que eu pudesse sentar-me sem me 

cansar. Eu estava sentado com os joelhos levantados, de encontro ao peito, e os braços trançados em volta das pernas. Quando ele disse que eu estava cansado, percebi que minhas costas estavam doendo e que eu estava quase exausto. 

Esperei que ele explicasse o que queria dizer um “ponto”, mas ele não procurou elucidar isso abertamente. Pensei que talvez ele quisesse dizer que eu devia mudar de posição, de modo que me levantei e sentei mais perto dele. Protestou contra meu movimento e frisou claramente que um ponto significava um lugar em que a pessoa se sentisse naturalmente feliz e forte. Mostrou o lugar em que estava sentado e disse que era o ponto dele, acrescentando que tinha proposto um enigma que eu teria de resolver sozinho, sem mais conversas. 

O que ele tinha proposto como um problema a ser resolvido era certamente um enigma. Não tinha idéia de como começar, nem mesmo do que ele teria em mente. Várias vezes pedi uma indicação, ou pelo menos uma sugestão, sobre como proceder para encontrar um ponto em que me sentisse feliz e forte. Insisti e argumentei, dizendo que eu não tinha idéia do que ele realmente queria dizer porque não podia conceber o problema. Ele sugeriu que eu andasse pela varanda até encontrar o ponto. 

Levantei-me e comecei a andar pelo chão. Senti que estava fazendo papel de bobo e sentei-me diante dele. 

Ele ficou muito aborrecido comigo e me acusou de não prestar atenção e disse que talvez eu não quisesse aprender. Depois de algum tempo, acalmou-se e explicou que nem todos os lugares eram bons de se sentar ou estar, e que dentro dos limites da varanda havia um ponto que era único, um ponto em que eu estaria em minha melhor forma. Cabia a mim distingui-lo de todos os outros lugares. A idéia geral era que eu teria de “sentir” todos os pontos possíveis que me fossem acessíveis, até poder estabelecer, sem dúvida, qual o certo. 

Argumentei que, embora a varanda não fosse muito grande (2,5 por 3,Sm), o número de pontos possíveis era imenso e eu levaria muito tempo para verificar todos, e como ele não tinha especificado o tamanho do ponto, as possibilidades podiam ser infinitas. Meus argumentos foram em vão. Levantou-se e me avisou muito severamente de que eu poderia levar dias para resolver aquilo, mas que, se não resolvesse o problema, mais valia eu partir, pois ele não teria mais nada a me dizer: Frisou que sabia onde ficava meu ponto, e que, portanto, eu não lhe poderia mentir; disse que aquele era o único meio pelo qual ele poderia aceitar meu desejo de aprender a respeito de Mescalito como motivo válido. Acrescentou que no mundo dele, nada era dado de presente, e que tudo o que se tinha de aprender tinha de ser aprendido com dificuldade. 

Deu a volta à casa e foi ao chaparral, urinar. Depois, entrou em casa diretamente pelos fundos. 

Achei que a tarefa de encontrar o suposto ponto de felicidade era sua maneira de me despachar, mas levantei-me e comecei a andar de um lado para outro. O céu estava azul. Eu via tudo o que havia na varanda e perto dela. Devo ter andado por uma hora ou mais, mas nada aconteceu para revelar a posição do ponto. Fiquei cansado de andar e sentei-me; depois de alguns momentos, sentei-me em outro lugar, e depois em outro, até ter percorrido todo o chão de maneira semi-sistemática. Propositadamente, procurei “sentir” diferenças entre os lugares, mas faltava-me o critério para a diferenciação. Senti que estava perdendo meu tempo, mas fiquei ali. Raciocinei que tinha vindo de muito longe só para ver Dom Juan, e não tinha mesmo mais nada para fazer.

Deitei-me de costas e pus as mãos debaixo da nuca, como um travesseiro. Depois, rolei e fiquei deitado de bruços um pouco. Repeti esse processo de rolar no chão todo. Pela primeira vez, achei que tinha encontrado um vago critério. Sentia-me mais quente quando me deitava de costas. 

Tornei a rolar, dessa vez na direção oposta e voltei a percorrer todo o chão, ficando de bruços em todos os lugares em que tinha ficado da costas em minha primeira volta rolada. Experimentei as mesmas sensações de frio e calor, dependendo de minha posição, mas não havia diferença entre os pontos. 

Então, ocorreu-me uma idéia que me pareceu brilhante: o ponto de Dom Juan! Fiquei ali sentado, depois deitei-me, primeiro de bruços e depois de costas, mas o lugar era igual a todos os outros. Levantei-me. Já bastava. Eu queria despedir-me de Dom Juan, mas não queria acordá-lo. Olhei para meu relógio. Eram duas horas da madrugada! Eu estava rolando havia seis horas. 

Naquele momento, Dom Juan saiu da casa e foi para o chaparral. Depois voltou e ficou junto da porta. Sentia-me completamente rejeitado e queria dizer-lhe alguma coisa desagradável e ir embora. Mas percebi que não era culpa dele; que eu mesmo é quem tinha querido passar por toda aquela tolice. Disse-lhe que tinha fracassado; tinha passado a noite no chão da sua casa e ainda não conseguia entender o enigma dele. 

Riu e disse que aquilo não o surpreendia porque eu não agido direito. Não tinha usado os olhos. Era verdade, o no entanto eu tinha muita certeza de que ele dissera que eu tinha de sentir a diferença. Expus esse argumento, mas ele que a gente pode sentir com os olhos, quando estes não olhando diretamente dentro das coisas. Quanto a mim, disse ele, não tinha outro meio de resolver esse problema a não fiado tudo o que eu tinha – meus olhos. 

Foi para dentro. Eu tinha certeza de que ele me tinha atado observando. Achei que não havia outro jeito de ele saber que eu não tinha usado os olhos. 

Recomecei a rolar, pois era esse o sistema mais cômodo. Dessa vez, porém, coloquei o queixo nas mãos e olhei pata todos os detalhes. 

Depois de um intervalo, a escuridão em volta de mim mudou. Quando me concentrava no ponto bem defronte de mim, toda a periferia de meu campo de visão tornava-se brilhantemente colorida com um amarelo-esverdeado homogêneo. O efeito era impressionante. Mantive os olhos fixos no ponto diante de mim e comecei a rastejar de lado sobre a barriga, um pouquinho de cada vez. 

De repente, num ponto perto do meio do chão, verifiquei outra modificação de tonalidade. Num lugar à minha direita, ainda na periferia de meu campo de visão, o amarelo esverdeado tornava-se intensamente roxo. Concentrei minha atenção nele. O roso desmaiou para uma cor pálida, mas ainda brilhante que se manteve constante enquanto eu concentrava a atenção nela. 

Marquei o local com meu paletó e chamei Dom Juan. Ele saiu para a varanda. Eu estava muito emocionado; tinha realmente visto a mudança nas tonalidades. Ele não pareceu impressionar-se, e disse-me que me sentasse no lugar e lhe que sensações tinha. 

Sentei-me e depois deitei-me de costas. Ele ficou de pé a meu lado e me perguntou várias vezes como eu me sentia; mas não senti nada de diferente. Por uns quinze minutos Procurei sentir ou ver alguma diferença, enquanto Dom Juan fiava pacientemente a meu lado. Eu estava aborrecido. Tinha um gosto de metal na boca. De repente, tive dor de cabeça. Tulha ânsias de vômito. A idéia de minhas tentativas idiotas me irritava a ponto de me enfurecer. Levantei-me. 

Dom Juan deve ter observado a minha profunda frustração. 

Não riu; e muito sério, declarou que eu tinha de ser inflexível comigo mesmo, se quisesse aprender. Eu só tinha duas opções, disse ele: desistir e ir para casa, e nesse caso eu nunca havia de aprender; ou decifrar o enigma.

Tornou a entrar em casa. Eu queria sair logo, mas estava muito cansado para dirigir; além disso, o fato de eu ter percebido as cores era tão impressionante que eu estava certo de ser um critério qualquer, e talvez houvesse outras modificações a serem percebidas. De qualquer forma, era muito tarde para partir. Por isso, sentei-me, estiquei as pernas e recomecei tudo. 

Dessa vez eu me movi rapidamente por cada lugar, passando pelo ponto de Dom Juan, até o fim da varanda e depois virei-me para cobrir a extremidade externa. Quando cheguei ao centro, vi que estava havendo outra modificação de coloração em meu campo de visão. O verde-amarelado uniforme que eu via em todo o setor transformava-se, em um ponto à minha direita, num verde forte. Ficou assim por um momento e depois metamorfoseou-se em outro tom constante, diferente do outro que eu tinha visto antes. Tirei um de meus sapatos e marquei o ponto, continuando a rolar até ter coberto o chão em todas as direções possíveis. Não se deu nenhuma outra mudança de coloração. 

Voltei ao ponto marcado pelo meu sapato e examinei-o. Ficava a mais ou menos 1,50m do ponto marcado pelo meu paletó, numa direção sudeste. Perto dele havia uma pedra grande. Fiquei ali deitado por algum tempo, procurando descobrir alguma pista, olhando para todos os detalhes, mas não senti nada de diferente. 

Resolvi tentar o outro ponto. Rodopiei depressa nos joelhos e já ia deitando no paletó quando senti uma apreensão anormal. Era mais como uma sensação física de alguma coisa me empurrando no estômago. Dei um salto e recuei num movimento só. Os cabelos de minha nuca se eriçaram. As pernas estavam levemente arqueadas, o tronco debruçado para a frente, e os braços esticados na mesma posição, rigidamente, com os dedos contraídos como garras. Reparei em minha estranha posição e assustei-me ainda mais. 

Sem querer, andei para trás e sentei-me na pedra junto de meu sapato. Da pedra passei para o chão. Tentei imaginar o que teria acontecido para me assustar assim. Achei que devia ser o cansaço que estava sentindo. Já era quase dia. Sentia-me tolo e encabulado. No entanto, não tinha jeito de saber o que me assustara, nem tinha descoberto o que era que Dom Juan queria. 

Resolvi fazer uma última tentativa. Levantei-me e, devagar aproximei-me do lugar marcado pelo paletó e tornei a sentir a mesma apreensão. Dessa vez, fiz um grande esforço para me controlar. Sentei-me e depois ajoelhei-me para deitar de bruços, mas, a despeito de minha vontade, não consegui deitar-me. Pus as mãos no chão em frente de mim. Minha respiração estava ofegante; meu estômago estava embrulhado. Tive uma nítida sensação de pânico, e lutei para não fugir. Pensei que talvez Dom Juan me estivesse vigiando. Devagar, rastejei até o outro ponto e encostei as costas na pedra. Queria repousar um pouco para arrumar as idéias, mas adormeci. 

Ouvi Dom Juan falando e rindo por cima de minha cabeça. Acordei. 

– Você encontrou o ponto – disse ele. 

A principio, não entendi, mas ele me garantiu de novo que o lugar em que eu adormecera era o ponto certo. Tornou a me perguntar como é que eu me sentia deitado ali. Respondi que realmente não notava nenhuma diferença. 

Disse-me que comparasse minhas sensações daquele momento com o que eu tinha sentido deitado no outro ponto. Pela primeira vez, ocorreu-me que eu não poderia explicar minha apreensão da noite. Incitou-me, numa espécie de desafio, a me sentar no outro ponto. Por algum motivo inexplicável eu chegava a ter medo do outro lugar, e não me sentei lá. Declarou que só um tolo podia deixar de perceber a diferença. 

Perguntei-lhe se cada um dos dois pontos tinha um nome especial. Ele disse que o bom era chamado o sitio e o mau o inimigo: disse que os dois lugares eram a chave do bem-estar do homem, especialmente para uma pessoa que buscava o conhecimento. O simples ato de sentar no ponto da gente criava uma força superior; por outro lado, o inimigo enfraquecia a

pessoa e podia até provocar a sua morte. Ele disse que eu tinha refeito a minha energia, que tinha gasto muito na noite anterior, dormindo um pouco no meu ponto. 

Disse ainda que as cores que eu tinha visto, associadas a cada ponto especial, tinham o mesmo efeito geral, de dar ou de roubar a força. 

Perguntei-lhe se para mim haveria outros pontos como os dois que eu encontrara, e como deveria proceder para descobri-los. Respondeu que muitos lugares no mundo seriam comparáveis àqueles dois, e que o melhor meio de descobri-los seria verificar suas cores respectivas. 

Eu não sabia bem se tinha ou não resolvido o problema, e nem estava mesmo convencido de que tinha havido um problema: não podia deixar de sentir que toda aquela experiência era forçada e arbitrária. Tinha certeza de que Dom Juan me vigiara a noite toda e depois quisera agradar-me, dizendo que o local em que eu adormecera era o lugar que eu procurava. No entanto, eu não via um motivo lógico para isso, e quando ele me desafiou a sentar-me no outro ponto, não consegui fazê-lo. Havia uma estranha divisão entre a minha experiência pragmática de recear o “outro ponto” e minhas deliberações racionais sobre o caso todo. 

Dom Juan, por outro lado, estava muito certo de meu sucesso, e, agindo de acordo com isso, disse-me que me ia ensinar a respeito do peiote. 

– Você me pediu que lhe falasse sobre Mescalito disse ele. – Queria descobrir se tinha bastante fibra para encontrá-lo cara a cara. Mescalito não é brincadeira. Você tem de ter domínio sobre si. Agora, sei que posso admitir o seu simples desejo como um bom motivo para aprender. 

– Vai mesmo ensinar-me a respeito do peiote? 

– Prefiro chamá-lo Mescalito. Faça o mesmo. 

Quando vai começar? 

Não é assim tão simples. Primeiro, você tem de estar pronto. 

Creio que estou pronto. 

Isso não é brincadeira. Você tem de esperar até não haver nenhuma dúvida, e então o encontrará. 

– Tenho de preparar-me? 

– Não. Só tem de esperar. Pode desistir de tudo, depois de algum tempo. Você se cansa facilmente. Ontem, você queria desistir assim que ficou difícil. Mescalito exige um propósito muito sério. 

Segunda-feira, 7 de agosto de 1961 

Cheguei à casa de Dom Juan no Arizona por volta das sete horas da noite de sexta feira. Havia mais cinco índios sentados com ele na varanda da casa. Cumprimentei-o e esperei que eles dissessem alguma coisa. Depois de um silêncio formal, um dos homens levantou-se, chegou perto de mim e disse “Buenas noches”. Levantei-me e disse “Buenas noches”. Depois todos os outros homens se levantaram e se aproximaram de mim e nós todos murmuramos “buenas noches” e nos apertamos as mãos, mal tocando uns nos dedos dos outros ou pegando a mão por um instante e largando-a abruptamente. 

Nós todos nos sentamos outra vez. Eles pareciam meio encabulados, sem saber o que dizer, embora todos falassem espanhol. 

Deviam ser umas sete e meia quando todos se levantaram de repente e foram para os fundos da casa. Ninguém dizia uma palavra, fazia tempo. Dom Juan me fez sinal para acompanhá-los e nós todos entramos numa velha camioneta estacionada lá. Sentei-me atrás com Dom Juan e mais dois rapazes mais moços. Não havia almofadas nem bancos e o chão de metal era duro de doer, especialmente quando saímos da estrada pavimentada e passamos para

uma de terra. Dom Juan cochichou-me que íamos à casa de um amigo dele, que tinha sete mescalitos para mim. 

– Não tem nenhum, Dom Juan? – perguntei-lhe. 

– Tenho, mas não podia oferecê-los a você. Entende, é outra pessoa que tem de fazer isso. 

– Pode dizer-me por quê? 

– Talvez você não seja agradável a “ele” e “ele” não goste de você, e então nunca poderá conhecê-lo com afeto, como se deve; e nossa amizade ficará estragada. – Por que ele não havia de gostar de mim? Nunca lhe fiz nada. 

– Não precisa fazer nada para ele gostar de você ou não. Ou ele o recebe ou o joga fora. 

– Mas se ele não me receber, não há alguma coisa que eu possa fazer para obrigá-lo a gostar de mim? 

Os dois outros homens pareceram ouvir minha pergunta e riram. 

– Não! Não sei de nada que se possa fazer – disse Dom Juan. 

Virou-se meio de lado e não pude mais falar-lhe. 

Devemos ter viajado pelo menos por uma hora antes de parar diante de uma casinha. Estava bem escuro e depois que o motorista desligou os faróis eu só conseguia distinguir a silhueta vaga do prédio. 

Uma moça, mexicana, a julgar pelo sotaque, estava gritando com um cão para ele parar de latir. Saltamos do caminhão e entramos na casa. Os homens resmungaram “Buenas noches” ao passarem pela moça. Ela os cumprimentou e continuou a gritar com o cão. 

A sala era grande e amontoada de um mundo de coisas. Uma luz fraca de uma lâmpada elétrica muito pequenina tornava a cena muito, lúgubre. Havia várias cadeiras de pernas quebradas e assentos caídos encostadas às paredes. Três dos homens sentaram-se num sofá, que era o móvel maior da sala. Era muito velho e estava apoiado no chão; à luz fraca parecia ser vermelho e sujo. Nós outros nos sentamos nas cadeiras. Permanecemos calados por muito tempo. 

De repente, um dos homens levantou-se e foi para outra sala. Tinha talvez uns 50 e poucos anos, e era moreno, alto e forte. Um momento depois voltou com um vidro de café. Abriu a tampa e entregou-me o vidro: dentro havia sete artigos de aparência estranha. Eram de tamanhos e consistência variados. Uns eram quase redondos, outros alongados. Ao tato, pareciam a polpa de nozes ou a superfície da cortiça. Sua cor acastanhada os fazia parecer cascas de nozes duras e secas. Peguei nelas, esfregando sua superfície por algum tempo. 

– Isso é para mascar (esto se masca) – cochichou Dom Juan. 

Não tinha percebido que se havia sentado junto de mim, até ele falar. Olhei para os outros homens, mas ninguém estava olhando para mim; estavam conversando entre si, em voz baixa. Foi um momento de grande indecisão e medo. Sentia-me quase incapaz de me controlar. 

– Tenho de ir ao banheiro – disse-lhe eu. – Vou até lá fora, dar uma volta. Entregou-me o vidro de café e eu coloquei os botões de peiote ali. Já ia saindo da sala, quando o homem que me dera o vidro se aproximou de mim e disse que tinha uma privada no outro aposento. 

O vaso ficava quase junto da porta. Junto dela, quase encostada ao vaso, havia uma grande cama, ocupando mais da metade do quarto. A mulher estava ali dormindo. Fiquei parado junto da porta um pouco e depois voltei à sala onde estavam os outros homens. O dono da casa falou-me em inglês: 

– Dom Juan disse que você é da América do Sul. Lá existe mescal? 

Respondi-lhe que nunca tinha ouvido falar nisso.

Pareceram estar interessados na América do Sul e conversamos um pouco sobre os índios. Neste momento, um dos homens me perguntou por que eu queria comer peiote. Eu disse que queria saber como era. Todos riram, encabulados. Dom Juan me disse baixinho: – Masque, masque (masca, masca). 

Minhas mãos estavam úmidas e meu estômago, contraído. O vidro com os botões de peiote estava no chão ao lado de minha cadeira. Abaixei-me, peguei um ao acaso e o pus na boca. Tinha um gosto de coisa velha. Mordi, dividindo-o em dois, e comecei a mastigar um dos pedaços. Senti um amargo forte e pungente; num momento, toda minha boca estava dormente. O amargo aumentava enquanto eu mascava, forçando urna salivação incrível. Minhas gengivas e a parte interna de minha boca estavam como se eu tivesse comido carne seca ou peixe salgados, parecendo obrigar-me a mascar mais. Pouco depois, masquei o outro pedaço, e minha boca estava tão amortecida que eu nem sentia mais o amargor. O botão de peiote tinha uma penca de fibras, como a parte fibrosa da laranja ou da cana, e eu não sabia se devia engoli-Ia ou cuspi-Ia. Naquele momento, o dono da casa levantou-se e convidou a todos Para saírem para a varanda. 

Saímos e ficamos sentados no escuro. Estava bastante agradável lá fora e o anfitrião trouxe uma garrafa de tequila. 

Os homens estavam sentados numa fileira, encostados à parede. Eu estava à extrema direita da fila. Dom Juan, que continuava a meu lado, colocou o vidro com os botões de peiote entre as minhas pernas. Depois, passou-me a garrafa, que tinha vindo pela fila, e disse-me que bebesse um pouco de tequila para tirar o amargor. 

Cuspi os fiapos do primeiro botão e tomei um gole. Ele me disse que não ó engolisse, mas apenas bochechasse para fazer parar a salivação. Não adiantou muito para a saliva, mas certamente ajudou a tirar um pouco do amargo. 

Dom Juan deu-me um pedaço de damasco seco, ou talvez fosse um figo seco – eu não conseguia ver no escuro, nem sentir o gosto – e disse-me que o mastigasse bastante e devagar, sem me apressar. Tive dificuldade em engoli-lo; parecia que não queria descer. 

Depois de um curto intervalo a garrafa foi novamente passada. Dom Juan deu-me um pedaço de carne-seca. Disse-lhe que não estava com vontade de comer. – Isto não é comer – falou ele, com firmeza. 

A função repetiu-se seis vezes. Lembro-me de já ter mascado seis botões de peiote, quando a conversa ficou muito animada: embora eu não conseguisse distinguir que língua estavam falando, o tema da conversa, da qual todos participavam, era muito interessante, e eu procurei ouvir atentamente para também poder participar. Mas quando tentei falar, vi que não conseguia; as palavras passeavam a esmo pela minha cabeça. 

Fiquei sentado, encostado à parede, escutando o que os homens falavam. Estavam falando italiano e repetiam continuamente uma frase a respeito da estupidez dos tubarões. Achei que era um assunto lógico e coerente. Eu havia contado a Dom Juan que o rio Colorado no Arizona fora chamado pelos primeiros espanhóis de “el rio de los tizones” (rio dos tições); e que alguém tinha escrito errado ou entendido errado a palavra tizones e o rio foi chamado “el rio de los tiburones” (rio dos tubarões). Eu tinha certeza de que estavam comentando essa história, mas não me ocorreu pensar que nenhum deles sabia falar italiano. 

Estava com muita vontade de vomitar, mas não me lembro se o fiz, de fato. Perguntei se alguém poderia arranjar-me água. Estava com uma sede insuportável. Dom Juan me trouxe uma panela grande. Colocou-a no chão junto da parede. Trouxe também uma canequinha. Mergulhou-a na panela e deu-a a mim, dizendo que eu não podia beber, mas que devia apenas refrescar minha boca com ela. 

A água tinha um aspecto estranho, reluzente, como um verniz grosso. Quis perguntar a Dom Juan a respeito e com dificuldade tentei formular meus pensamentos em inglês, mas depois pensei que ele não sabia falar inglês. Houve um momento de muita confusão e tive

noção do fato de que, embora tivesse um pensamento claro em minha cabeça, eu não podia falar. Queria comentar sobre o. estranho aspecto da água, mas o que se seguiu não foi fala: era a sensação de meus pensamentos não falados saindo de minha boca em forma líquida. Era uma sensação fácil de vômito sem as contrações do diafragma. Era um agradável fluxo de palavras líquidas. 

Bebi. E a sensação de estar vomitando passou. A essa altura todos os sons haviam desaparecido e vi que…

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