Linguagem e Realidade: Para Uma Teoria do Significado Segundo Hilary Putnam

Linguagem e realidade parece expressar uma trivialidade: falamos uns com os outros, e, portanto, falamos sobre algo, sobre coisas e objetos, seja sempre lá o que for.

O título “Linguagem e realidade” parece expressar uma trivialidade: falamos uns com os outros, e, portanto, falamos sobre algo, sobre coisas e objetos, seja sempre lá o que for. Entretanto, nós não apenas falamos sobre algo; nós compartilhamos também alguma coisa com nosso interlocutor: nós lhe damos algo para compreender, ao lhe dizer algo. O que nós aí damos para que o interlocutor compreenda são nossos pensamentos sobre coisas, sobre as quais conversamos com os outros e, na verdade, com o intuito de alcançarmos um acordo sobre essa coisa. O discurso e a fala apresentam uma tríplice pressuposição: (1) a coisa sobre a qual se fala; (2) a compreensão de uma coisa (que eu chamei mesmo de pensamento) que gostaríamos de compartilhar com os outros e (3) a palavra, ou seja, a forma fonética através da qual alguém pode manifestar ao outro aquilo que compreendeu de uma coisa. É necessário que se distinga entre aquilo sobre o que trata o discurso e aquilo que é dito — conforme, por exemplo, Gilbert de Poitiers (cf. Poitiers 1985, p.5; Fredborg & Kneepkens 1988, p.27; Schneider 1995, especialmente p.97): “In humana locutione duo considerantur, scilicet id de quo est sermo et id quod de ipso dicitur”. Ora, o que significa a tripla relação entre linguagem, pensamento e ser? Como é que se deve compreender essa “triangulação”? — expressão que tomo emprestada de Donald Davidson (1993, p.12).

Significados não estão na cabeça

Putnam quer mostrar num primeiro passo argumentativo que “significados não estão na cabeça”; que a condição psíquica não determina a extensão; que, portanto, representações mentais não determinam a partir de si mesmas a referência de uma palavra. Com esse intuito, Putnam construiu um exemplo, em The meaning of ‘meaning’: suponhamos que, em algum lugar da via láctea, exista um planeta, a ‘Terra gêmea’, que, com algumas exceções, assemelha-se exatamente à Terra que nos é familiar. Ora, faz parte — e eis uma das exceções — da singularidade da Terra gêmea que o líquido que lá é chamado de ‘água’ não é H2O, e sim outro líquido com uma composição química complicada, resumida na fórmula XYZ. Uma nave espacial terráquea transmitirá para casa: “Na Terra gêmea, a palavra ‘água’ significa XYZ” e uma nave espacial da Terra gêmea passará uma mensagem de rádio para casa: “Na Terra, a palavra ‘água’ significa H2O”.

Se agora — conforme o modelo aristotélico sugere — a representação mental, nesse caso, a representação, portanto, que relacionamos à palavra ‘água’, determina a referência da palavra ‘água’, então deve existir na igualdade da representação mental uma “igualdade da referência”. Todavia, é possível — como o exemplo mostra— que possa haver iguais representações mentais e, contudo, a referência seja diferente. Com essa possibilidade, ficam comprometidas as pressuposições indicadas: (1) O princípio da inequivocidade, ou seja, da univocidade na ligação de palavra e representação mental. (2) O princípio da sinonímia (duas palavras são sinônimas, quando elas se relacionam à mesma representação mental). E (3) o princípio da determinação da referência de uma palavra através da representação mental. Quando, Principia 19(2): 281–295 (2015). Linguagem e Realidade 287 portanto, uma diferença de referência a objeto de uma palavra se destaca por igual representação mental, então devemos abandonar os itens (1), (2) e (3).

Isso quer dizer que a palavra ‘água’ não pode significar XYZ “e” H2O, pois a referência é diferente; e daí deve-se abandonar a pressuposição (1) em que o princípio da inequivocidade na conexão de palavra e representação mental é justamente responsável por que o significado de uma palavra seja uniforme. A palavra ‘água’ tem, contudo, nesse exemplo, dois significados: no sentido em que a palavra ‘água’ é usada no planeta da Terra gêmea, aquilo que nós chamamos água simplesmente não é água nenhuma; e no sentido em que a palavra ‘água’ é usada na nossa Terra, aquilo que os habitantes da Terra gêmea chamam água não é simplesmente água nenhuma. Há, no sentido, uma diferença de referência a ‘água’ em representações iguais; e isso é exatamente o que o princípio (1) pretendia excluir.

Tampouco a palavra ‘água’ — que na língua de A, para os habitantes da Terra gêmea, significa XYZ — pode ser sinônima à palavra ‘água’, que na língua de B, do habitante da Terra, significa H2O, pois XYZ não é idêntico a H2O; são substâncias diferentes. Daí deve-se abandonar também o princípio (2), para o qual duas palavras (aqui ‘água’ na língua do terráqueo e ‘água’ na língua do habitante da Terra gêmea) são então sinônimas, se os falantes as relacionam à representação mental igual.

Todavia, a palavra ‘água’ tem no exemplo dois diferentes significados. Pode ser que dois falantes se encontrem na mesma situação psíquica, isto é, ligar a mesma representação mental com uma palavra; e não obstante podem ser diferentes a(s) referência(s) e, no caso, o significado da palavra. Se isso for possível, então a referência de uma palavra não pode ser nenhuma função só da situação psíquica ou da representação mental, e daí deve-se abandonar também o princípio (3), conforme o qual a representação mental determina a referência a partir de si mesma. Putnam chega exatamente a esse ponto: mostrar que em representações mentais iguais a referência pode ser diferente. Mas isso quer dizer que representações mentais, conceitos e imaginações não podem determinar a referência e, com isso, nem o significado de uma palavra.

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