A princesa salva a si mesma neste livro

A princesa salva a si mesma neste livro
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Amor e empoderamento em versos que levam os contos de fada à realidade feminina do século XXI A princesa salva a si mesma neste livro, de Amanda Lovelace
Sumário
Amor e empoderamento em versos que levam os contos de fada à realidade feminina do século XXI A princesa salva a si mesma neste livro, de Amanda Lovelace, é comparado ao fenômeno editorial Outros jeitos de usar a boca, de Rupi Kaur, com o qual compartilha a linguagem direta, em forma de poesia, e a temática contemporânea. É um livro sobre resiliência e, sobretudo, sobre a possibilidade de escrevermos nossos próprios finais felizes. Não à toa A princesa salva a si mesma neste livro ganhou o prêmio Goodreads Choice Award, de melhor leitura do ano, escolha do público. Esta é uma obra sobre amor, perda, sofrimento, redenção, empoderamento e inspiração. Dividido em quatro partes (“A princesa”, “A donzela”, “A rainha” e “Você”), o livro combina o imaginário dos contos de fada à realidade feminina do século XXI com delicadeza, emoção e contundência. Amanda, aclamada como uma das principais vozes de sua geração, constrói uma narrativa poética de tons íntimos e cotidianos que acolhe o leitor a cada verso, tornando-o cúmplice e participante do que está sendo dito.
Título original: the princess saves herself in this one Copyright © 2017 Amanda Lovelace Tradução para a língua portuguesa © 2017, Casa da Palavra/LeYa, Izabel Aleixo
Devoradora de palavras e leitora ávida e apaixonada de contos de fadas desde a infância, era natural que Amanda Lovelace começasse a escrever seus próprios livros. E foi o que ela fez. Quando não está lendo ou escrevendo, pode ser encontrada aguardando seu café com especiarias para voltar à maratona de temporadas de Gilmore Girls. Poeta vitalícia e atual contadora de histórias, mora em Nova Jersey com o noivo, seu gato temperamental e uma coleção de livros tão grande que em breve precisará de uma casa só para ela. Bacharel em literatura inglesa, cursou também sociologia. A princesa salva a si mesma neste livro é sua estreia na poesia e o primeiro livro da série “Women Are Some Kind of Magic”. Amanda também pode ser encontrada como ladybookmad no Twitter, Instagram e Tumblr (ainda não descobriu como funciona o Snapchat).

610, de 19.

02.

1998.

É proibida a reprodução total ou parcial sem a expressa anuência da editora e da autora.

Preparação: Lina Rosa Revisão: Cris Cessim Caz Capa: Leandro Dittz Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057 Lovelace, Amanda A princesa salva a si mesma neste livro / Amanda Lovelace ; tradução de Izabel Aleixo.

– Rio de Janeiro : LeYa, 2017.

ISBN 978-85-441-0659-4 Título original: The Princess Saves Herself in This One 1.

Poesia Norte-Americana.

2.

Autorrealização (Psicologia) em Mulheres – Poesia.

3.

Mulheres – Poesia.

4.

Feminismo.

I.

Título.

II.

Aleixo, Izabel.

17-1476 CDD 811.

6 Índices para catálogo sistemático: 1.

Poesia Norte-Americana Todos os direitos reservados à EDITORA CASA DA PALAVRA Avenida Calógeras, 6 | sala 701 20030-070 — Rio de Janeiro — RJ www.

leya.

com.

br para o menino que sobreviveu.

obrigada por me inspirar a ser a garota que resistiu.

você tem um raio na testa para mostrar isso, e meu corpo inteiro é uma tempestade.

sumário I.

a princesa II.

a donzela III.

a rainha IV.

você aviso I: este livro não é um conto de fadas.

não há nenhuma princesa.

não há nenhuma donzela.

não há nenhuma rainha.

não há nenhuma torre.

não há dragões.

há apenas uma garota diante da difícil tarefa de aprender a acreditar nela mesma.

aviso II: final feliz à frente.

aqui jazem as cruas não lapidadas, & na sua maioria desarticuladas partes da minha alma.

ah, a vida.

.

.

a coisa que acontece conosco enquanto estamos distraídos em algum outro lugar soprando dentes-de-leão & desejando estar nas páginas do nosso conto de fadas favorito.

era uma vez.

.

.

I.

a princesa a princesa eu nasci meio louca por livros.

podiam me encontrar acariciando as lombadas dos meus livros sozinha, trancada dentro da minha torre do meu quarto.

o tempo todo, eu esperava que meus livros derramassem suas palavras delicadas sobre o exuberante tapete verde para que eu pudesse recolhê-las uma a uma e saboreá-las como se fossem frutas vermelhas na minha boca.

– para sempre colecionadora de palavras.

quando eu não tinha amigos entrava nos meus livros amados & esculpia alguns com times new roman corpo 12.

– & isso era quase bom o bastante.

a garotinha não está escutando.

.

.

está muito, muito ocupada olhando pela janela, fantasiando sobre um mundo de acontecimentos mágicos, envelopes voadores, corujas que piam, gigantes adorados, vassouras que fazem mais do que varrer, amigos que são sempre leais, & um trem que a levará para um lugar encantado muito muito muito longe daqui.

– sob um feitiço perpétuo.

a rainha minha mãe sorria ao me oferecer um torrão de açúcar na palma da mão.

avidamente, eu aceitava.

abria minha boca, e delicadamente colocava um (apenas um) no centro da minha língua, & eu o apertava.

sal.

isso é o que chamo de abuso: saber que você vai receber sal, e ainda esperar receber açúcar durante dezenove anos.

– você pode ter ido embora, mas ainda tenho dor no estômago.

uma noite a princesa eu a princesa eu a princesa eu a princesa acordou sentindo o castelo balançar para trás & para frente para trás & para frente para trás & para frente para trás & para frente para trás & para frente para trás & para frente para trás & para frente para trás & para frente para trás & para frente primeiro ela pensou um furação deve estar passando, mas estava errada.

aonde todas as memórias vão, aquelas que escondemos à chave & tranca mas estão a nos moldar do mesmo jeito?

– se não me lembro, isso aconteceu?

aos onze anos o médico me pesou & em seguida, minha mãe me disse que eu estava muito gorda & precisava fazer uma dieta imediatamente.

por um ano inteiro, a comida mal passou pelos meus lábios.

eu nem permitia a mim mesma tomar um gole de água porque queria ser tão magra que pudesse ser carregada pela brisa mais suave.

.

A AYAHUASCA E O TRATAMENTO DA DEPENDÊNCIA

desaparecer.

perdi vinte e sete quilos em poucos meses & tinha que usar mangas compridas para cobrir minha única catarse.

– no entanto, todo mundo me dizia como eu estava ótima.

existem algumas mães que vão lhe avisar para nunca, jamais, (nunca nunca) encostar no fogão, mas existem algumas mães que vão arrastar você para lá, pulando & dando gritinhos, & rindo enquanto assistem às chamas lamberem a ponta dos seus dedos.

– quando lhe ensinam a ver o mundo através do fogo, nada parece seguro.

“solicitação de amizade ____________” a) da garota que disse que você era feia.

b) da garota que disse que sua voz era desafinada.

c) da garota que se recusou a defender você.

d) da garota que riu de você pelas suas costas & na sua cara.

e) da garota que roubava o dinheiro do seu lanche todos os dias porque dizia que você não precisava comer.

f) da garota que dizia que você era “gorda” mesmo depois de você quase morrer de fome.

g) da garota que supostamente era sua melhor amiga.

h) todas as respostas acima.

– continue ignorando, querida.

gorda (gor.

da) [ô] adjetivo 1: palavra descritiva.

não tem nenhum significado profundo.

não deve determinar o valor (ou a falta de) de um ser humano.

– o que sei agora que gostaria de saber então.

paus & pedras nunca quebraram meus ossos, mas palavras fizeram eu me deixar morrer de fome até você poder ver todos eles.

– pele & osso.

minha irmã & eu passávamos as noites desejando as estrelas de plástico, que brilhavam no escuro no nosso teto.

– afinal de contas nós as colamos lá.

não havia nunca álcool o bastante para manter mamãe aquecida numa casa tão fria quanto essa.

– mas você continuava tentando, não?

você não deve nunca amar nada mais do que ama seus próprios filhos.

você não deve nunca amar ninguém mais do que ama seus próprios filhos.

– como você pôde?

agora que penso sobre isso, ela sempre fez questão de que eu a visse arrancando o balão da minha mão & deixando-o voar para longe.

havia uma vez seis cinco garotas que dividiam cada parte delas mesmas sangue & segredos & amores & até mesmo um diário.

mas uma garota pode apenas sangrar muito antes de encontrar seu próprio óbito.

– vejo você na califórnia.

como pode alguém ser jovem demais para se apaixonar quando somos feitos de ondas do mar & luz de estrelas?

– um amor jovem.

uma manhã acordei com meus lençóis do menino bruxo preferidos manchados de sangue.

implorei para não acontecer, & de repente era como se meu corpo não fosse mais meu mas de todo mundo.

– não mudou muito desde então.

meu primeiro beijo: à força imobilizada, uma boca repetindo não não não.

depois: manchas roxas & o inconfundível gosto de sangue.

– nunca vou perdoar você.

você se tornou o astro de todo & qualquer um dos meus pesadelos.

– você foi embora mas ficou.

sinto muito por não ser a filha que você tinha em mente.

– só queria que você se orgulhasse de mim.

I.

a visão do fio vermelho desenhado pela lâmina de aço.

II.

o jeans antes muito apertado sambando no meu corpo.

– dois alívios inesperados para uma garota.

é estranho como i r m ã s podem ser i n d i s p e n s á v e i s ou i n i m i g a s & às vezes um pouco das duas coisas.

– irmãs.

havia alguns segredos que ameaçavam despedaçar minhas peças de porcelana mas era preciso me manter inteira.

– eu não sabia nada.

– o silêncio sempre foi meu grito mais alto.

a princesa conta: 1.

as cicatrizes no seu joelho.

2.

o número de vezes em que o balanço vai lá no céu.

3.

os livros na sua estante.

4.

os fios soltos na sua blusa.

5.

as letras nas suas palavras.

6.

as telhas no teto.

7.

os segundos que passam por ela.

8.

os deveres de casa esquecidos.

9.

as horas que faltam para ela voltar para cama.

10.

os quilos na balança.

11.

o número de vezes que ela mastiga.

12.

a som suave dos seus passos.

13.

as marcas de contar que faz no seu corpo.

14.

os fios de cabelos que caem.

15.

as estrelas que se apagam.

& depois começa de novo.

& depois começa de novo.

& depois começa de novo.

& depois começa de novo.

& depois ela começa de novo.

pássaros não podem voar quando você corta uma das suas asas.

você não ficou satisfeita em cortar apenas uma das minhas asas.

você tosou as duas bem perto da raiz para ter certeza de que eu nunca mais voasse para nenhum lugar jamais outra vez.

– mãe & filha.

como eu não tinha mais minhas asas usava umas falsas cobertas de glitter dourado.

– uma aspirante a fada ao contrário.

chegou um tempo em que a poesia me mostrou como sangrar sem a necessidade de sangue.

– meu amor mais leal.

costumava pensar que estava doente porque nunca na vida fiquei sonhando acordada que comia romãs suculentas da árvore de outra pessoa.

– depois aprendi que a sociedade é que está doente, não eu.

observar a casa que era meu santuário & meu inferno se consumir em chamas foi triste e alegre mas muito mais apenas alegre.

– uma confissão.

se uma casa não é automaticamente um lar, então um corpo também não é automaticamente um lar.

– sempre me senti uma estranha na minha própria pele.

ela começa a rasgar as páginas dos seus livros favoritos & a enfiar freneticamente a maçaroca de palavras na boca, rezando que fosse verdade o fato de você ser o que come enquanto suga o sabor da tinta da ponta de seus dedos enegrecidos.

– não posso ser apenas uma garota de papel com uma vida de papel?

você pode não ter deixado (muitas) manchas roxas na minha pele, mas deixou manchas roxas escuras gigantes por toda minha alma.

– ainda me pergunto quem eu deveria ter sido.

a princesa fechou a si mesma longe na torre mais alta, esperando um cavaleiro de armadura brilhante que viria para resgatá-la.

– não me dava conta de que podia ser meu próprio cavaleiro.

II.

a donzela a donzela deixou que os dragões descessem do céu & a levassem para longe da feiura do seu mundo.

sem saber, ela estava apenas trocando uma torre pela outra.

– os mentirosos mais perversos de todos.

não tenho medo dos monstros escondidos debaixo da minha cama.

tenho medo dos garotos com cabelos castanhos despenteados, olhos apertados, & bocas que só sabem como dizer meias verdades.

– meus dragões.

se lembra quando você me disse que escreveu aquela canção linda para mim & apenas para mim.

.

.

a sua “única”?

bem, posso apostar que você não se lembra de que já tinha me mostrado a letra, dizendo que era para ela.

– você estava apaixonado pela ideia do amor, não por mim.

promessas sussurradas na chuva serão levadas pela á g u a.

– direto para a porra do ralo.

eu era a única coisa que ele tinha que negar.

.

.

a verdade bela dentro da terrível mentira dele.

– quem sabia que um coração tão jovem poderia se partir?

quando meu dragão de olhos verdes foi embora, eu peguei uma faca & cortei meu cabelo longo e lindo, tirando a única coisa que ele amava em mim.

– terminou antes de começar.

“eu podia fácil engolir você inteira.

” – da boca insaciável do lobo mau.

ele me ama.

ele não me ama.

ele a ama.

ele não a ama.

ele me ama.

ele não me ama.

ele a ama.

ele não a ama.

ele me ama.

ele não me ama.

ele a ama.

ele não a ama.

ele me ama.

ele não me ama.

ele a ama.

ele não a ama.

ele me ama.

ele não me ama.

– eu ia arrancando as pétalas.

o sangue corria toda vez que ele me tocava com a ponta dos dedos.

– meu punhal & espinhos.

por um tempo me parecia que éramos iluminados pelas estrelas, sem conseguir perceber que éramos na verdade amaldiçoados pelas estrelas.

– as estrelas nunca estiveram do nosso lado.

ele era feito de fogo & eu era feita de gelo.

cheguei perto demais da chama dele & ele me derreteu com suas brasas, me reduzindo a uma poça.

com o tempo congelei de novo, mas não era mais a mesma.

.

.

uma imitação frágil e rala do que eu era.

– onde estava o medo que eu sentia do fogo quando cheguei perto de você?

“odeio você.

” – a versão dele para “amo você”.

quando finalmente chegou a hora de ir embora, ele guardou toda minha poesia numa mala & a levou com ele.

– primeiro meu coração, depois minhas palavras.

ele prometeu me consertar & me deixou mais destroçada do que eu era antes.

– mas agora tenho ouro nas rachaduras.

tenho que acreditar que chegará o dia em que não vou estremecer toda vez que ouvir o nome dele.

– alguns nomes serão sempre malditos.

tenho tanto amor para dar, mas ninguém nunca o quis.

– um copo transbordando.

se o amor é um campo de batalha, então eu devo ter esquecido todas as minhas armaduras em casa.

– uma guerra que nunca me dispus a lutar.

em todos os meus sonhos me via colhendo meus dentes de cima do tapete.

– o que o dicionário dos sonhos diz?

minha mãe contou ao médico educado que era como se ela tivesse estrelas brilhando nos olhos & elas eram quase bonitas na opinião dela.

.

.

como se o quatro de julho tivesse decidido chegar antes.

o médico hesitou antes de lhe dar a notícia.

“não são estrelas.

é câncer.

” – fumante por quarenta anos.

foi quando estávamos tomando nosso costumeiro café tarde da noite.

sem nenhum tremor naquela voz solene, ela se virou para mim & disse que seu último desejo era que eu espalhasse suas cinzas no oceano para que ela pudesse finalmente voltar para casa.

– uma sereia fugitiva.

quando sua mãe começa a esquecer seu nome, você começa a se perguntar se existe mesmo afinal.

– estágio 4, terminal.

você pensa que seus pais são à prova de destruição até que um dia descobre que eles não são.

– o que perder a inocência significa de verdade.

estou exausta de todo mundo ficar me dizendo como sou forte.

eu?

forte?

apenas finjo ser forte porque é a única distração que tenho de pensar na minha inevitável vida sem mãe.

– uma pena disfarçada de aço.

todo mundo me encoraja a me manter firme nos meus sonhos para passar o tempo, mas o que acontece quando seus sonhos são pesadelos que se repetemrepetemrepetem?

– por favor, me acorde.

quem eu vou ser sem ela?

como eu posso ser sem ela?

ironia: quando sua irmã saudável & inteligente & impressionantemente linda morre menos de um mês antes da sua mãe doente terminal.

– ninguém percebeu que você estava tão doente quanto.

minutos antes de sua mãe ligar para avisar, senti o cheiro de baunilha do seu perfume & minha boca se encheu de um gosto de terra.

– a morte é um dos sentidos.

filhos não devem morrer antes dos pais.

eu não devia ficar mais velha do que minha irmã mais velha.

era para sermos quatro irmãs, não três.

você não devia ser uma urna de cinzas na mesinha de cabeceira da sua mãe.

afinal de contas, você era aquela que sempre brilhava.

– destino é a porra de uma mentira.

a pior parte é nunca ser capaz de saber se foi suicídio ou não.

– a verdade me libertará.

ela uma vez fez a promessa de me salvar quando desde o começo nós é que devíamos tê-la salvado de si mesma.

– por favor, volte.

irmã.

.

.

onde quer que você esteja agora espero que tenha uma praia.

– estrelas-do-mar me farão sempre lembrar de você.

segurei a concha do mar na minha orelha, não na expectativa de escutar o bater das ondas do mar mas com a esperança premente de capturar ao menos um pequeno timbre da sua voz uma última vez.

– imortalizada numa mensagem.

foda-se, câncer, por ter me tirado a possibilidade da mãe que eu nunca mais vou ter agora.

– 03/11/10.

fui eu que encontrei seu corpo (você não estava num lugar para ser encontrada), a boca toda aberta, grande o suficiente para sugar todo o oxigênio do quarto, grande o suficiente para se plantarem lírios nela, grande o suficiente como se tivesse chamado meu nome.

.

.

isto é, se ao menos você se lembrasse dele.

– quero esquecer, esquecer, esquecer.

seu atestado de óbito afirma que você morreu em 3 de novembro às 3h03 da madrugada.

isso é mentira.

você morreu muito antes disso.

– 3 não é mais o meu número da sorte.

quando um ente querido morre, dizem que você deve abrir uma janela para deixar sair aquela última respiração arquejante, então a alma dele pode se libertar.

mas a dela ainda está aqui comigo.

noite após noite, após noite, ela bate com os punhos nas paredes dos meus sonhos, implorando que eu lhe mostre a saída.

– o outro lado.

num enterro: lágrimas de dor por uma vida que se foi muito jovem, muito cedo.

.

.

uma tragédia.

noutro: lágrimas de alívio por um sofrimento que durou tempo demais.

.

.

misericórdia.

– & no entanto ambas me deixaram vazia.

durante mais da metade do ano eu ficava apavorada toda vez que o telefone tocava com medo de que fosse mais um aviso de que alguém tinha morrido.

– outros três viriam.

todo mundo que amo está partindo.

a quantos enterros pode alguém ir antes de completar dezenove?

– a família amaldiçoada.

nunca esperei que a morte fosse minha companheira mais fiel, mas ela é a única que virá sem que eu tenha que chamar.

– a única que nunca irá embora.

o luto se agarrou a ela como um vestido velho, desbotado, de segunda mão, que pinica e veste mal.

a morte se enrola em volta dos ossos dela como um pedaço de fio vermelho.

uma imagem: uma garota com olheiras debaixo dos olhos de dormir muito ou pouco.

uma garota com um gato de coração partido permanentemente aninhado nos braços dela.

uma garota ignorando as pilhas de livros preciosos que a cercam por todos os lados.

uma garota incapaz de fazer chorar a si mesma porque se ela finalmente chorar então isso quer dizer que aconteceu mesmo.

será que existe alguma coisa como o dia das mães mortas?

meses depois que minha mãe morreu, achei o livro que ela estava lendo por último com um recibo ficando amarelo ainda dentro dele, marcando onde ela parou & finalmente me dei conta de que você nunca vai terminar esse livro específico você nunca vai começar ou terminar outro livro nunca mais você nunca vai ver eu me formar na faculdade você nunca vai conhecer o amor da minha vida você nunca vai estar presente no meu casamento você nunca vai ler essas palavras nós não vamos nunca nunca nunca mais sentar na varanda dos fundos & contar uma a outra histórias de fantasmas com canecas de café fumegante nunca nunca nunca mais.

& tento imaginar o que você iria dizer se eu lhe contasse que não fui capaz de rir durante muito tempo porque quando eu ria, alguém me dizia que eu ria igualzinho a você, mas acho que isso é apenas o tipo de coisa que vou ter que guardar para mim & dar para você mais tarde.

– para sempre colecionadora de palavras II.

tantas horas dias meses anos da minha vida desperdiçados para que tivesse certeza de que estava vazia.

estou apavorada até a raiz dos cabelos porque podem existir partes de mim que nunca mais se preencham.

– às vezes penso que seria melhor se alguém derrubasse a árvore inteira & começasse de novo.

ela não vai parar de me perseguir.

– meu fantasma.

ele não vai parar de me caçar.

– meu fantasma II.

foda-se a ideia de que existe essa coisa de destino, de que existe algum tipo de plano misterioso, de que existe um deus que simplesmente não nos dá nada com que não possamos lidar.

a dor não fez de mim uma pessoa melhor.

não me ensinou a não dar as coisas como certas.

não me ensinou nada a não ser como ficar com medo de amar alguém.

sou muito jovem para estar tão desgraçadamente destruída & se eu pudesse voltar atrás no tempo & dar a mim mesma a infância dela de volta, eu daria.

– qual o objetivo?

talvez.